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  JONGO
De estrutura matriarcal os quilombos mantêm viva essa dança de roda conhecida popularmente como o pai do samba

POR DENISE DOMINGOS

Até dois anos não havia luz elétrica no Quilombo São José, no município de Valença, próximo à cidade de Conservatória, no interior do Rio de Janeiro. O isolamento geográfico (560 metros do nível do mar e quase 20 km de estrada de terra que separa o quilombo de Conservatória) contribui para que a vida por lá permaneça praticamente igual à época da escravidão, nos idos de 1850 – quando seus antepassados chegaram à fazenda São José. Cerca de 200 quilombolas, divididos em 31 famílias, ainda vivem em casas de barro com telhado de sapê, cozinham em fogões a lenha e usam ferros a carvão. O ritmo da comunidade – marcado pelo batuque do tambor do jongo – comprova: a tradição vive!

Neste cenário, o Quilombo São José, aconteceu o lançamento do livro e CD, Jongos do Brasil, durante o 11° Encontro de Jongueiros. O trabalho, selecionado pelo projeto Natura Musical, reuniu a história de 11 quilombos e a sonoridade de 23 jongos interpretados pelos próprios jongueiros. “Percebemos que havia uma demanda da arte não atendida.

Este projeto prova o quanto é importante o registro desse trabalho para dar continuidade ao que essas comunidades tentam preservar. Queremos torná-las visíveis no mundo”, explica Renata Sbardelini, gerente de marketing institucional.

HERANÇAS AFRICANAS
O autor, olhando de longe, não tem nada a ver com o universo que retratou. Marcos André, 33 anos, nasceu na zona sul carioca, mas foi levado, ainda criança, por seu avô a freqüentar um terreiro de umbanda. O contato com as heranças africanas o tem marcado desde então. “Sou branco, de classe média, nasci no Leblon, mas não sofri preconceito ou desconfiança. Fui recebido em todas as comunidades com carinho e amizade”, conta ele, que também é músico e produtor cultural. A primeira surpresa de Marcos – que viajou pelo Brasil e pesquisou por 11 anos – foi descobrir que as famílias quilombolas, mesmo há mais de 100 anos após a Abolição, continuam a dançar o jongo, como seus ancestrais escravos. Todos os moradores do Quilombo São José são primos e descendentes do fundador, o escravo Pedro, que veio de Angola para a colheita de café da fazenda. Hoje, ele é representado por seu neto, Tio Mané.

É ele quem detém a sabedoria da cura através das ervas e é o mais antigo jongueiro da comunidade. Uma das moradoras mais tradicionais, Tia Santinha – que aos 83 anos ainda lida na roça – passou a vida inteira no quilombo. “Sou nascida e criada aqui. Fiquei apenas três anos fora trabalhando numa casa de família, em Niterói”, conta, lúcida, enquanto compara o quilombo de ontem e hoje: “Antes tudo era com muito sacrifício, agora temos até luz!”. Quilombolas como Tia Santinha são a memória viva da comunidade. “Cada idoso que morre é um arquivo de jongo, da história e da cultura que se vai. Os jovens do quilombo estão gravando depoimento dos idosos para deixar para as próximas gerações”, conta Marcos André.

AQUI, MULHER MANDA!
Os quilombos são estruturas matriarcais, como na África, o São José foi liderado por Mãe Zeferina, que faleceu aos 78, ano passado. Hoje está sob o comando da sua filha, Terezinha Fernandes de Azedias, a Mãe Tetê, que também é a Mãe de Santo da comunidade e há 30 anos a merendeira da escola local. “Enquanto a raiz estiver firme, nós também estaremos”, decreta a matriarca, de 62 anos. Antônio Nascimento Fernandes, conhecido como Tonico Canecão, irmão de Mãe Tetê, foi o primeiro vereador negro do município de Valença e é o presidente da Associação da Comunidade Negra Remanescente de Quilombo São José da Serra. “Aos 16 anos eu já era líder da comunidade. Quando nasci, meu avô Geraldo ficou cego e eu passei a ser sua bengala e seus olhos. Ele me passou vários ensinamentos que não passou nem ao meu pai. Temos coisas que ainda mantemos em segredo por aqui. São mistérios do quilombo que não podemos revelar...”

O Quilombo São José está a um passo de conseguir a posse definitiva da terra. Será o primeiro quilombo de proprietário particular a conseguir o feito. Os outros beneficiários estavam localizados em terras do governo. “A terra é nosso alicerce. É tão importante que todos somos agricultores. Respeitamos a terra como nossa mãe”, diz Tonico. “A próxima festa da comunidade será dia 13 de Maio - que para nós não é o dia da abolição dos escravos e sim dos ancestrais, dos pretos velhos. Esta data só será considerada a nossa abolição se for para comemorar a posse definitiva da terra”, conclui Marcos André.

Mais que dança - um ritual
Segundo o livro Jongos do Brasil, o jongo foi trazido da região africana Congo-Angola para o Brasil Colônia. Os negros escravos podiam dançar o jongo nos dias dos santos católicos – era o único momento permitido para a confraternização. É uma dança dos ancestrais, dos preto-velhos escravos, do cativeiro. A dança é profana, para divertimento, mas guarda uma atitude religiosa e misteriosa. Os antigos eram muito rígidos e exigiam respeito para ensinar os segredos do jongos e os fundamentos dos seus pontos. Por isso, no início, só os mais velhos entravam na roda de jongo, os jovens ficavam apenas observando. Dança-se na maioria das vezes descalço, com roupas do dia-a-dia. O jongo é acompanhado por dois tambores (grave e agudo). A dança do jongo acontece ao ar livre. Os negros montam uma fogueira e iluminam o terreiro com tochas. Armam uma barraca de bambu, onde os casais dançam ao ritmo do calango. À meia-noite, a negra mais idosa interrompe o baile caminha para o terreiro de terra batida, se benze nos tambores sagrados, pede licença aos preto-velhos (antigos jongueiros que já morreram). O primeiro casal entra na roda e começa a dança. Dança-se o jongo no dia 13 de maio, consagrado aos preto-velhos, nos dias santos católicos de devoção da comunidade, nas festas juninas, nos casamentos e recentemente em apresentações públicas.

CONTATOS: ASSOCIAÇÃO BRASIL MESTIÇO (21) 3852-0043 – 3852-0053 BRASIL@BRASILMESTICO.COM.BR WWW.BRASILMESTICO.COM.BR

 

 
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