Uma desculpa. Era tudo o que eu queria. E o pior: eu tinha. Uma desculpa para não dar certo, para justificar meu esforço, para festejar de maneira exagerada o reconhecimento de todos. Ser mulher, baixinha, gorda, invocada... Nossa... Não vai dar certo... Uma desculpa genial. O preconceito. Quando eu conseguia um prêmio da vida eu já mandava aquela: "Olha, não foi fácil. Se eu ainda fosse assim, se todos estivessem a meu favor..." Que nada, a vida é contra. Demorei muitos, muitos anos para saber que tudo que a gente não precisa na vida é ter razão, ou ter uma desculpa. Que nada na vida da gente é por acaso: cor, preferência sexual, tamanho. Ser gorda ou magra. Branca ou negra. Normal, excepcional, especial, homossexual... Regras... Gavetinhas que a gente espera que os outros nos guardem. Para nada. Essas desculpas não servem para nada e não devem servir para você também. Não faz diferença quando você se olha no espelho e enxerga o resultado da sua vida. Quando o tempo passa, quando chega o reveillon e a gente começa a pensar em pular as ondas e fazer os desejos para o ano que inicia.
Tem gente que tem um trato com o fracasso. Explicação para tudo, seja no passado ou no futuro. Literatura e exemplos para justificar as razões de não conseguir libertar-se das amarras, ver o fundo do abismo sem vertigem. A gente pode usar todas essas coisas para se desculpar em discurso, mas para gente a desculpa não cola. E mesmo que temos como exemplo um passado infeliz, de nada vale para justificar. Porque nada está como era, nem no próximo mês, na próxima semana, na próxima hora. Nada será como está nos próximos quinze minutos. Passou. A vida é essa. Agora. O gesto, a palavra, o conceito, a bula, o remédio, à vontade... Na hora que acabar o jogo, na hora de contar a história ninguém vai se lembrar dos detalhes da cor, da preferência sexual, do tamanho, do manequim. Tudo o que existe na vida da gente que nos desculpa também nos atrasa.
Ser negro é lindo. Não ser também é. Ser branco é monótono, pelo menos aqui. Mas ninguém pode ter a incrível missão de fazer você se sentir feliz. Essa obrigação é sua. Por isso não faz sentido se esconder embaixo de pedras e mais pedras de preconceitos e historinhas. Viver é saber o momento certo de pegar a onda. Nem antes nem depois, na hora. Nem branco, nem preto, o cara certo. Ser feliz é o trato com as suas idéias, aprendendo, enriquecendo assimilando a razão do outro. Tanto faz. Nem obrigatoriamente negro. Nem necessariamente branco. Somente ser feliz. Nem só homem, nem apenas mulher - gente, da melhor qualidade. Com todos os certificados e garantias.
Eu sempre gosto de ler e andar com sobreviventes. Mas o chato de andar com sobreviventes é que eles não ligam para nossas desculpas e explicações. Querem saber quanto foi o jogo, quantos gols. É o que fica. Sem historinha. Então não use nada disso. Nem a favor, nem contra. Usa-se o que se tem. Se é magro, desfila na passarela, se é gordo, posa para o Botero. Mas viva. Seja feliz. Essa cor te faz bem? Que bom. Te faz mal, que pena. Tomara que você seja daqueles que quando abre a boca eu até esqueço do seu sexo. Mas faça alguma coisa. Talvez sua avó não tivesse tido essa oportunidade.
QUE SE LIXE QUEM NOS QUER MAL
Uma coisa é mais do que certa: é completamente estúpido se ver pelo retorno dos outros. Se for assim, não seremos nem mais nem menos do que o resultado do grupo. Se fosse assim, não existiria história, nem talentos, nem diferenças. E se não existissem diferenças, não existiriam matizes nem cores. Se não fosse a diferença, não existiria nada. Por isso, é melhor se orgulhar das suas diferenças do que do seu comum. Observe seu interior e use a peneira social, o que sobrar, temperar, essa é sua diferença.
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