A palavra cafundó adquiriu um sentido bastante curioso no português informal. Segundo o dicionário, cafundó significa "lugar de difícil acesso". De fato, não é fácil chegar a Cafundó. Localizada no município de Salto de Pirapora, a cerca de 44 quilômetros da cidade de Sorocaba, a comunidade de quilombolas Cafundó é um registro vivo da história da escravidão em São Paulo. A história da comunidade está preservada na memória dos habitantes. Eles contam que Cafundó teve início quando um fazendeiro libertou alguns de seus escravos e lhes entregou 218 hectares de terra, sob a condição de que permanecessem na área. Um desses escravos libertos foi Joaquim Congo. Natural do norte de Angola, Congo casouse com Ricarda e teve duas filhas: Antônia e Eugênia. Essas, por sua vez, deram origem a duas famílias que até hoje habitam o quilombo: os Almeida Caetano e os Pires Cardoso. Preocupado em prevenir que a língua original dos quilombolas - a cupóia - se perdesse, Congo fazia questão de que suas filhas nunca deixassem de usar a língua materna. Mistura de dialetos angolanos com o português colonial, a cupóia é considerada o principal patrimônio cultural da comunidade, atraindo a atenção de pesquisadores e ativistas. A permanência do idioma, mesmo após tantos anos, é testemunha do empenho dos quilombolas por preservar sua cultura original, mesmo sob uma influência externa cada vez maior. Hoje, dos 105 habitantes, não mais de cinco ou seis falam a cupóia. "Estamos tentando passar para os jovens a importância de manter a língua", conta Regina Aparecida Pereira, que está na comunidade há três anos. As casas do quilombolas construídas em paua- pique, foram substituídas por casas de alvenaria. Apenas uma foi mantida no estilo original, para manter a tradição e ficar na lembrança dos moradores. A idéia é transformá-la em um museu para receber visitantes, como forma de resguardar a história do quilombo.
O idioma cupóia é patrimônio cultural da comunidade |

ESPERANÇAS RENOVADAS
No dia 14 de junho o quilombo Cafundó teve a primeira vitória na batalha pela recuperação de suas terras: foi assinada a portaria 235 do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que reconhece o território da comunidade. O próximo passo será a desapropriação e titulação das áreas que foram sendo ocupadas por fazendeiros ao longo dos anos. Após a comemoração pelo reconhecimento, aumentaram as preocupações com ameaças e violência de invasores e a falta de trabalhos esporádicos nas áreas rurais. A comunidade Cafundó foi priorizada pela sua história conhecida e por ter sido tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, cuja finalidade é proteger, valorizar e divulgar o patrimônio cultural no estado de São Paulo.