
Quando São Paulo se prepara para saborear novamente o elaborado cardápio de grandes idéias e nomes trazidos pela 27ª Bienal de Arte, um outro espaço - bem menos badalado e muitíssimo menor do que o pavilhão do Ibirapuera - entra em funcionamento para oferecer os pratos agridoces de uma cozinha em ebulição. No parque mais importante da cidade, a Bienal chega sob o mote Como Viver Perto. Em uma casa de Pinheiros, uma outra bienal quer discutir Como Viver Longe.
Longe dos grandes circuitos expositivos e perto da realidade é onde transita a Casa da Xiclet, galeria nascida há quase cinco anos e que vem alfinetando - às vezes com xingamentos, às vezes com sorrisos - as estruturas do mercado de arte. Mostra como Quero Ser Amigo(a) da Lisette (em alusão à curadora da Bienal deste ano) evidencia a mescla de criação e contestação que dá vida ao espaço. Como em qualquer lar que se preze, seu espírito nada mais é do que reflexo da dona da casa, a capixaba Xiclet, 37, que em algum momento foi chamada de Adriana Matos Alves Duarte.
Formada em artes plásticas, saiu do Espírito Santo em 1997 para mostrar suas obras nas galerias paulistanas. Tratava- se de séries "sobre as possibilidades artísticas da goma de mascar", realizadas com bolsa do CNPq e matrizes do que se tornaria o indefectível apelido. Com as galerias nada deu certo, mas empregos e investidas acadêmicas foram fazendo com que Xiclet formasse um novo círculo de amigos, ocupantes dos churrascos de sábado em sua casa. O pessoal foi comendo e ficando. Nascia aí a Casa da Xiclet, terreno para expor e se expor, criar e soltar os bichos.
"Na Casa da Xiclet, as pessoas podem entrar e ficar à vontade, mesmo" |
RAÇA BRASIL - Suas mostras-manifesto contam por vezes com os próprios "homenageados". Qual foi a mola propulsora para transformar críticas em proposta artística.
XICLET - Nelson Leirner sempre foi meu mestre, pois ele é um dos artistas que mais questionou e questiona o circuito das artes e a sociedade. Ele faz arte social com humor. Além dele, sempre gostei do Cildo Meireles. São esses grandes artistas minhas molas propulsoras, aprendi "lendo" como criticavam com arte, às vezes com humor, às vezes com paródia e quase nunca com classe.
Lagnado, curadora da Bienal este ano, visitou sua Casa há algum tempo e considerou "importantes" os propósitos do espaço. Ela será convidada para sua "27ª Bienal"?
Sim, claro, ela e todo mundo. A Casa é aberta a todos que apreciam arte, e as pessoas podem entrar e ficar à vontade mesmo. Acho ótimo a Lisette considerar importante nossas discussões porque, apesar do tom humorado, estamos sim questionando o circuito da arte o tempo todo. Aqui nós ficamos antenados com o que acontece e com o que vai acontecer, trabalhamos em tempo real e virtual, afinal o circuito da arte é meu material de trabalho, desde a primeira exposição questionando a falta de espaços até o todo- poderoso El Cid [em referência ao ex-banqueiro e ex-mecenas Edemar Cid Ferreira].
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