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especial
10 anos de muita RAÇA
CENA 1 Era o ano de 1915. Nem bem o século tinha começado, e lá estava a primeira geração de descendentes de escravos lutando, na cidade de São Paulo, para criar os primeiros jornais para os "homens e mulheres de cor" brasileiros. Para conversar, discutir, se divertir, os afro-brasileiros daqueles tempos se reuniam nos "clubes de preto", nas "associações dançantes" da cidade. Foi lá que surgiram os primeiros jornais da imprensa negra. De O Menelick, editado em 1915, ao O Clarim da Alvorada, de 1963, passando pelo O Xauter, O Getulino, A Princesa do Norte, entre vários outros títulos , os jornais negros tinham pequena tiragem e duração precária. Festas, aniversários, acontecimentos sociais, reivindicações e protestos dos negros paulistanos era o que se encontrava nos primeiros números da nossa imprensa. "Esse jornal surgiu para alfinetar os negrinhos e negrinhas brasileiros", dizia o provocante slogan de O Alfinete, em 1919, advertindo os leitores contra as práticas boêmias e o analfabetismo. Eram os negros culpando a si próprios e buscando sozinhos a solução para os dilemas da exclusão e do racismo.
CENA 2 Grande São Paulo, setembro de 1996. Lágrimas, risos, surpresa e euforia. Nas bancas de jornais e revistas da cidade, os afro-brasileiros recebiam a primeira edição da revista Raça Brasil. O sucesso foi tanto que os 200 mil exemplares da tiragem inicial se esgotaram nas bancas. "Todos os meses, Raça Brasil vai falar de nossos problemas e apresentar soluções. Vai ajudá-lo a se cuidar melhor, a viver com mais alegria e segurança. Vai também discutir nossa identidade, resgatar nossa herança cultural e mostrar que a negritude é alegre, rica, linda", dizia o editorial. De lá pra cá, lá se vão dez anos, 102 edições, centenas de reportagens nas quais dezenas de jornalistas e editores buscaram cumprir a promessa. Os principais nomes e acontecimentos ligados à negritude brasileira estiveram em nossas páginas. Procuramos dar-lhes visibilidade, discutir, fazer refletir e transformar. Os jornalistas da velha imprensa negra, entre 1915 e 1963, tentaram, por meio de 36 títulos de jornais e revistas, retratar os fatos sociais de entidades e agremiações em sua luta pela dignificação da raça. Se estivessem aqui, com certeza iriam comemorar.

TRABALHO - LUTA, SUOR, E A HISTÓRICA DESIGUALDADE!
Em1996, as relações entre raça e trabalho mantinham suas características históricas. De acordo com boletim do Dieese, publicado naquele ano, a proporção de pretos e pardos ocupados era maior no setor agrícola, construção civil e prestação de serviços. Entre os que faziam serviços domésticos, 13,7% eram pretos, 9,6% pardos, contra 6,3% de brancos. Os dados da PNAD, IBGE, por sua vez, apontam que, durante a década de 90, na região Norte, as meninas afro-descendentes representaram 68% a 73% da massa de trabalhadores infantis domésticos, e no Nordeste o percentual ficava entre 74% a 80%. "O aspecto mais perverso da discriminação no mercado de trabalho se dá nos processos de promoção ou mobilidade para cargos de chefia, liderança ou comando, que têm maior responsabilidade, visibilidade e remuneração", acrescenta Mércia Consolação Silva, socióloga e consultora do centro de Estudos da Relação Trabalho e Desigualdade Racial. A fundação, em 1995, do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial foi um dos avanços desta década. Composto por três centrais sindicais brasileiras (CUT, Força Sindical e CGT), pela Central Norte Americana e pela Organização Regional Interamericana, o órgão trouxe uma maior divulgação e intercâmbio de informações sobre a questão racial e o trabalho entre os povos das Américas. "Quanto mais nobre o trabalho, menor a representação de negros e pardos", sinaliza Neide Aparecida Fonseca, presidente do Inspir. Para reverter o quadro, cresce o número de afro-brasileiros que vêm se organizando como empreendedores. No Rio de Janeiro, o Centro de Articulação das Populações Marginalizadas criou o Fundo Afro, projeto de manutenção de redes solidárias de empreendedores sociais que beneficia 90 comunidades. Já a Incubadora Afrobrasileira, criada pelo Instituto Palmares de Direitos Humanos ganhou, ano passado, o prêmio Marketing Best de Responsabilidade Social por apoiar os negócios de mais de 450 pequenos empresários negros.

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