Começa assim. Sinto uma coceira como se um inseto estivesse subindo na minha pele, e minha cabeça começa a formigar bem no meio dos meus olhos, e quero espirrar, porque meu nariz está coçando, e o ar sopra dentro do meu ouvido e ouço muitas coisas: o barulho dos insetos, o som de um caminhão bufando como um animal e depois alguém gritando TOMEM SUAS POSIÇÕES IMEDIATAMENTE! VAMOS! VAMOS! VAMOS! RÁPIDO! MAIS RÁPIDO! numa voz que corta meu corpo como uma faca.
Abro os olhos e vejo na escuridão à minha volta uma luz que sai de um buraco no telhado e cruza o ar como uma teia. E quando a luz entra, sinto meu corpo tremer todo como se eu fosse um ratinho preso num canto da sala. O cheiro de chuva e suor penetra meu nariz, e minha camisa está tão molhada que parece uma outra pele. Quero me mexer, mas todos os meus ossos estão doendo e meus músculos estão doendo como se formigas-de-fogo estivessem picando meu corpo todo. Se eu pudesse bater em mim mesmo, poderia espantar a dor, mas não consigo nem sequer mexer um dedo. Então não faço nada.
Ouço passos vindo de todos os lados e imagino meu pai trazendo remédio para acabar com a coceira e a dor. Viro de barriga para cima. Os passos estão cada vez mais altos, mais altos, mais altos, e agora posso ouvir mais os passos do que minha própria respiração e as batidas do meu coração. Tam tam, tam tam, tam tam, mais alto, mais alto, mais alto até que vejo uma sombra cobrindo a luz debaixo da porta.
Alguém está batendo na porta. TOC TOC. Mas não respondo. Então, eles batem e chutam com muita raiva e o lugar todo sacode e o telhado começa a desmoronar em pedacinhos e entra mais luz. As madeiras começam a rachar até que ouço TIM TIM e vejo o parafuso da porta caindo dentro do balde perto do meu pé. O som bate na parede, quicando de um lado para o outro, através da teia de luz, e aí o som abre a porta, e vejo uma claridade enorme. CLARIDADE! É tão forte que, por um bom tempo, só enxergo círculos roxos. Então vejo uns olhos amarelos que pertencem a um corpo baixo e escuro com barriga grande e pernas finas como as de uma aranha. O corpo é tão magro que o short que está usando fica balançando em volta de suas pernas como uma saia de mulher, e a camisa, pendurada nos ombros, parece mais um vestido. Seu pescoço luta para segurar sua cabeça grande, que está sempre olhando de um lado para outro.
Olho para ele. Ele olha para mim. Não parece surpreso em me ver, mesmo que eu esteja surpreso em ver ele, mas sua expressão muda, fica mais séria. Ele me cheira como um cachorro e me pisa. POU! E começa a me bater.
De novo e de novo, ele me bate e cada um de seus socos atinge minha pele como se fosse um facão. Tento gritar, mas ele está apertando a minha garganta e socando minha boca. Sinto gosto de sangue. Acho que vou vomitar. O lugar todo começa a se desmanchar como fruta podre na prateleira, pronto para cair em cima de nós em mil pedaços. Ele agarra minha perna e puxa com tanta força que parece que ela vai se rasgar como um pedaço de carne. Então meu corpo é arrastado lentamente do cubículo para a luz e para a lama.
Sob a luz, volto a respirar e o ar entra com força em meu peito e começo a tossir, e fico com os olhos cheios d’água. Vejo o mundo à minha volta. Olho para o céu cinza se mexendo bem devagar devagar sobre as folhas em cima das imensas árvores, os Irokos. E embaixo delas, várias árvores menores brigam umas com as outras para ter um lugar ao sol. As folhas estão tão molhadas de chuva que brilham que nem jóia ou vidro. O capim na beira da estrada está bem alto e tem um verde muito diferente de todos que já vi. Dá uma vontade de ficar alegre, de dançar, gritar, cantar porque Kai! Oba! Finalmente estou morto. Quem sabe esse menino é um espírito e devo agradecer por ele ter me trazido para casa, para a terra dos espíritos. Mas, antes mesmo de abrir a boca, noto que ele está indo embora, me deixando deitado de barriga para cima na lama.”
SERVIÇO
Uzodinma Iweala
FLIP – Festa Literária Internacional de Parati. Domingo, dia 13 - às 16h45, Tenda dos Autores, R$17 - Tenda da Matriz, R$5