DEPOIMENTOS
“Nunca um cd de hip hop deixou tão claro para a sociedade, interessada em música ou não, a real e original função do rap: ser uma crônica musical da vida na favela. Ouvir O Bagulho é Doido, o novo trabalho do rapper MV Bill, equivale a assistir àqueles filmes de ficção científica, onde, por uma artimanha tecnológica qualquer, um personagem pode ver e experimentar o mundo atrás dos olhos de outro. Só que aqui, a viagem não é ficção. Quando você tiver que baixar o volume do som do carro e abrir a janela para dar uma esmola ao garoto malabarista, vai dar de cara com a vida real! E nesse momento, talvez entenda que esse cd é a trilha sonora de um mundo real que, por uma mistura de conveniência e medo, a maioria de nós insiste em não ver. A trilha sonora de um filme de terror, com muito tiro e sangue, reprisado diariamente nas favelas sempre perto de você!
Logo nas primeiras batidas da faixa O Bagulho é Doido, a perfeita mistura de ritmo e poesia escancara as portas da periferia e revela o jogo trágico de um sistema ancestral que sempre legitima o ponto de vista dos vencedores. É reconfortante perceber que, para quem assistiu os trechos do documentário Falcão – Meninos do Tráfico, o cd não é, de forma alguma, uma redundância. Pelo contrário, é um mergulho vertical que cria emoções que só a música pode criar.
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Outro aspecto interessante do novo cd de MV Bill é que, por incrível que pareça, talvez seja o trabalho mais positivo do rapper da Cidade de Deus. Digo isso, porque o cd faz parte do projeto que inclui um livro e o documentário Falcão, cujos trechos chocaram o país no domingo, 19 de março de 2006, através de uma realidade deprimente e depressiva. Mesmo assim, MV Bill consegue resgatar momentos de descontração, como nas excelentes Junto e Misturado e Enquanto Eu Posso, sem perder a coerência.
A verdade é que seria injusto destacar apenas a mensagem de O Bagulho É Doido, uma vez que existe nitidamente uma riqueza sonora especifica no trabalho de MV Bill. Algo que mistura influências de outras culturas (já que Bill não pára mais de rodar o mundo), pesquisa das raízes da MPB, e uma afirmação de uma malícia típica da periferia carioca. Em certos momentos, por exemplo, pode-se perceber o mesmo DNA sócio-musical de Arlindo Cruz e Dudu Nobre.
Aliás, falando em descontração, vale atenção especial a uma faixa que já nasce clássica, Estilo Vagabundo. É o rap dando um passo além na tradição rhythm and blues dos duetos de casal. Só que, nesse caso, trata-se de um tremendo barraco, com direito a uma lavação de roupa suja sem precedentes, na voz de uma das boas novidades do disco, a irmã e rapper Kamilla, com quem Bill tem outras parcerias no cd”.
RAFAEL DRAGAUD - Roteirista e diretor de TV
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