Teresa Cristina Apaixonada pela herança musical de Candeia e intérprete das canções de Paulinho da Viola a ótima sambista continua a reafirmar: "Meu tempo é hoje"
POR DJALMA LEITE DE CAMPOS FOTO: MARCOS HERMES
A história da cantora e compositora Teresa Cristina, 38 anos, renderia um bom tema para sambas de Nelson Candeia (1935-1978), maior ídolo da jovem sambista carioca, que recentemente lançou O Mundo É Meu Lugar - Ao Vivo, terceiro álbum de uma vertiginosa carreira que começou meio ao acaso. "Não tive aquele sonho de cantar desde menina", dispara com surpreendente simplicidade. Antes de começar a passear pelo ritmo, ela registrou em sua carteira de trabalho várias outras profissões. "Fui manicura, vendedora e auxiliar de escritório. E prestei serviços ao Detran carioca." Até hoje segue matriculada no curso de Letras da UERJ, universidade onde já comandou um programa sobre MPB. Mas não consegue concluir o curso devido à agenda da carreira como sambista. "Troquei muito de profissão. Mas depois que peguei o gosto por cantar, não quero mudar mais". O ponto de partida da carreira foi o ano de 1998. A primeira oportunidade de cantar profissionalmente surgiu quando ela preparava um show em homenagem a Candeia que nunca aconteceu. A estréia oficial passou para o Planetário da Gávea. Pouco tempo depois Teresa apresentou-se em concorridas noites no bar Semente, na Lapa, e virou um dos símbolos do ressurgimento da boêmia na região do centro no Rio de Janeiro.
"MINHA VIDA SE DIVIDE EM a.C. E d.C. ANTES DE CANDEIA E DEPOIS DE CANDEIA” |
Ex-colega de classe do jogador de futebol Romário no ensino fundamental, a cantora de fala mansa e voz suave ficou famosa por cantar de olhos fechados e cabeça baixa. "De olhos fechados, eu ouvia a música muito melhor. As expressões do rosto da platéia não atrapalhavam meu desempenho", explica. O samba de Candeia serviu como enredo da infância de Teresa. Dezenas de carnavais antes de sentir despertar a paixão pelo ritmo, ela assistia aos risos o pai ouvir os discos de vinil de Nelson Candeia. Confessa que sentia vergonha sempre que o progenitor se rendia aos carinhos do sincopado. "Tinha preconceito. Ele cantava uma canção que falava de uma crioula. Dizia que eu era crioula. Mas eu não gostava. Nem sabia que era negra. Quando fiquei mais velha, e encontrei o disco que ele ouvia, me senti uma completa idiota. Ouvi músicas que hoje considero de qualidade", admite. O tempo em sua vida parece correr de outra forma. A sambista traduz no estilo de vida a expressão "meu tempo é hoje", de Paulinho da Viola. Em 1997, aos 29 anos, se descobriu compositora por meio de contato com os textos de literatura. A estréia de suas composições aconteceu em 2004, com o álbum - seu segundo disco. Umbandista, filha de Oxum, passou a misturar aos poucos algumas pitadas da religião ao cardápio de seu repertório. Com a realização de seu primeiro trabalho - A Música de Paulinho da Viola - a intérprete caiu nas graças da crítica e do público. O disco deu a ela o prêmio TIM de música como cantora revelação e a indicação ao Grammy Latino de melhor CD de samba de 2003. Nada disso mudou o rumo de sua trajetória. Acostumada com muita gente a sua volta, confessa se sentir mais segura no meio de uma roda de músicos e amigos. A exemplo de Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus, Teresa Cristina fez sua estréia mais "madura" - após a chegada dos 30 anos. "É apenas uma coincidência", sintetiza. "Escuto e adoro Ivone e Clementina, mas não gosto de falar de referência musical. Se não as pessoas vão ouvir minha música esperando encontrar alguma coisa parecida com o trabalho dessas grandes damas do samba. Não é isso", avisa. A homenagem a Candeia segue entre seus planos. Em O Mundo É Meu Lugar, ela gravou a clássica O Mar Serenou. "Comecei a cantar por causa de Candeia. Achava que meu primeiro disco seria em homenagem a ele, mas segui outro caminho. É como digo no documentário (Dona de Casa, Me Dá Licença) que está nos extras de meu DVD: `Minha vida se divide em a.C. e d.C. Antes de Candeia e depois de Candeia'". |