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BILL T. JONES Um dos melhores coreógrafos e bailarinos contemporâneos, ele é conhecido pela sua forma controversa de tocar em assuntos tão sensíveis como a sexualidade, a vida, a morte, a perda
POR FRAN OLIVEIRA

Nascido na Georgia, numa família às voltas com seis crianças, Bill T. Jones cresceu num bairro de Wayland, Nova York. Descobre o mundo na universidade (pública) de Binghamton depois de um verão quente, a cruzar a América à boléia, no melhor estilo dos anos rebeldes, quando sexo, droga e rock'n roll diferiam na forma, mas não no conteúdo da paz, do amor e do poder das flores. Vivem-se os dias da experiênciamãe de todas as virtudes. E então conhece Arnie Zane.
Arnie Zane e Bill T. Jones: uma dupla, dentro e fora dos palcos, uma parceria de 17 anos que só a morte prematura de Zane interrompe, entre uma e outra coisa, vivem as venturas e as desventuras que a vida reserva a quem (a) vive. Cruzam rotas e destinos, fazem juntos "a experiência de Amsterdã", simultaneamente, a estréia de vôo do jovem Jones, então, com 19 anos: "Amsterdã era um lugar onde prazer e sensação eram a própria essência da existência", escreve. A Companhia de Bill T. Jones / Arnie Zane é fundada em 1982 e vem ocupar um lugar conquistado a ferros num mundo onde nem mesmo a dança se permitia uma linguagem própria, espartilhada em academismos primários, e que só a determinação da dupla ousou com sucesso contrariar os cânones. Dois anos mais tarde, Zane apresenta os primeiros sintomas da doença que o vitimou em 1988.
O livro A Última Noite na Terra (Last Night on Earth), escrito por Bill T. Jones e a jornalisra Peggy Gillespie, em 1995, surpreende pela lucidez narrativa com que cumpre a intenção, confessa pelo autor em nota introdutória, de documento histórico. Com efeito, estamos perante um documento que, ao longo de quase 300 páginas, nos dá conta não só da história de uma vida com muitas histórias para contar, mas também, e sobretudo, do tecido social que lhes serviu de pano de fundo. A Última Noite na Terra é uma viagem pela infância, juventude e maturidade de um libertário com vocação de contador de histórias... De um homem que viaja entre o Novo e o Velho Continente para criar e dançar, com ou sem a companhia, que ainda hoje combina o nome de duas vidas que nem a morte conseguiu separar.
QUANDO PERGUNTADO SOBRE COMO USA A DANÇA PARA EXPLICAR SUAS IDÉIAS, BILL T. JONES RESPONDE, CITANDO MARTHA GRAHAM: “SE EU PUDESSE TE DIZER ISSO, NÃO DANÇARIA SOBRE ISSO“ |
O espetáculo Another Evening: I Bow Down, que chega ao Brasil em agosto, traz texto que faz referências ao Dilúvio, à arca de Noé, às promessas bíblicas em que Deus diz que vai destruir o Homem, ao desastre do Titanic, a episódios da vida pessoal de Jones. À trilha sonora, em dado momento se incorporam depoimentos das vítimas do furacão Katrina que devastou a cidade de New Orleans. Elementos que, a todo momento, nos lembram de nossa mortalidade. A companhia, marcada pela diversidade, é uma incorporação do mundo que Jones projeta e move-se no cenário minimalista de Bjorn Amelan, companheiro de vida e de criação de Jones desde 1993. A banda é colocada num espaço no fundo do palco, com uma porta de correr, surgindo e desaparecendo sob o comando de Jones, para soar como a voz de Deus ou o tronar de um terrível trovão. A presença de Arnie Zane - que fundou a companhia com Jones há 24 anos e faleceu, em 1991, vitimado pela aids - chega a ser material e se traduz na fé, no poder transformador da dança. Um tributo ao poder redentor da arte. O palco é transformado pelos brilhantes jogos de luz de Robert Wierzel, projetados sobre o linóleo de cores branca, preta e vermelha que acentuam a qualidade prismática da coreografia de Jones.
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