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  Ciúme, mas na dose certa
A suspeita e o ciúme são como venenos empregados na medicina: se pouco, salva; se muito, mata (Antonio Perez)

POR PAULA GANEM

MELANCHOLY, 1891- EDVARD MUNCH, ÓLEO SOBRE TELA

O sentimento é avassalador. Na mitologia grega, motivou Medéia a matar os próprios filhos para se vingar do ex-companheiro Jasão. Nas histórias de Shakespeare, fez com que o corajoso general Otelo acreditasse nas intrigas de Iago e matasse a própria mulher, Desdêmona. O pintor Edvard Munch - um dos criadores do expressionismo - nasceu em Löten, na Noruega, em 12 de dezembro de 1863. Começou a fazer retratos em 1880. Depois disso seguiu-se uma série de quadros naturalistas que testemunham sua rejeição ao impressionismo da época. Em dezembro de 1893, em Berlim, Munch fez exposição individual com várias pinturas intitulada Love. Fazem parte dessa série as obras Melancholy (1891), Ashes (1894), Jealousy (1895), The Kiss (1897), Separation (1900), entre outras. Munch foi o pintor de angústias existenciais e ameaças invisíveis como o ciúme. Emoção tão antiga quanto a própria humanidade, esse sentimento, ainda hoje, leva diferentes gerações às mais imprevisíveis reações diante da iminente perda da pessoa amada. Mas, mesmo que possa parecer difícil, é possível dominar essa fera capaz de arranhar e até destruir as mais estáveis relações. Afinal, quem nunca sofreu por um grande amor? A assistente administrativa Lourdes Caetana que o diga. Após seis anos de casamento com o músico Renato Moutinho de Araújo, os dois quase se separaram no fim de 2005. "Ele é muito popular no bairro onde moramos e gosta de sair à noite com os amigos para ver shows e conversar. Eu não conseguia lidar bem com essa situação", conta. Quando viu que os fantasmas não apenas assombravam como também estavam prestes a fazer ruir um amor de tantos anos, Lourdes procurou ajuda.

"Sou espírita e conversei muito com o coordenador do centro que freqüento e com uma amiga. Eles me fizeram ver que não posso mudar o jeito do Renato ser e que estava criando problema onde não existia nada", lembra. Superada a crise, os dois vivem bem mais tranqüilos. Lourdes garante que nunca esteve tão apaixonada pelo marido. E Renato até se diverte com as neuras da mulher. "A Lourdes era 100% ciumenta. Agora está muito melhor. Ela conseguiu entender que não sou o Reynaldo Giannechini e que não chove mulher em cima de mim", brinca. "E mesmo que eu olhe para uma garota bonita, isso não significa que vá sair com ela."

Engana-se, porém, quem pensa que o ciúme é um sentimento que acomete mais as mulheres do que os homens. Terapeuta especializado em relacionamentos amorosos e diretor do site www.mudancadehabito.com.br, Sérgio Savian não "ousa" dizer quem sofre mais com as inseguranças da paixão. Dos 200 a 300 e-mails que recebe por dia, pelo menos um terço é de pessoas que sofrem desse mal. "É quase que da nossa natureza animal sentir ciúme. Atendo tanto a homens quanto a mulheres que chegam dizendo que estão doentes", revela. Sim, o ciúme pode mesmo ser identificado como uma doença. Quem nunca sentiu crise de ansiedade, ânsia de vômito, forte palpitação ou suor frio ao ver passar o ex ou atual objeto de desejo em outra companhia? Se esse sentimento não é controlado, ele pode se tornar uma obsessão. "A pessoa se torna compulsiva e usa o outro como se fosse uma droga", explica o terapeuta. A boa notícia é que o remédio para os enfermos não é necessariamente caro nem difícil de encontrar. "É preciso ter uma fonte de bem-estar próprio para não se tornar refém do alimento fornecido pelo parceiro", avalia Savian. "Muita conversa, terapia e religião são alguns dos caminhos que podem levar à cura." Isso tudo, é claro, quando o sentimento é baseado em suposições.
"Quando é concreto não há como a pessoa não sentir."

ORIGENS DA DOR
Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, o ciúme tem duas origens. A primeira vem do fato de todos nós sermos seres bissexuais, que muitas vezes omitem o lado homossexual. Assim, quando achamos que o nosso parceiro está olhando para uma mulher bonita ou viceversa é porque no fundo nos sentimos atraídos por essa terceira pessoa. O outro motivo seria a repressão do instinto poligâmico existente em cada um, a repressão de nossa vontade de ser infiel nos faz supor que o parceiro também sente o mesmo.

EU QUERO LEVAR UMA
VIDA MODERNINHA / DEIXAR
MINHA MENININHA
SAIR SOZINHA
NÃO SER MACHISTA E NÃO
BANCAR O POSSESSIVO /
SER MAIS SEGURO E NÃO
SER TÃO IMPULSIVO
MAS EU ME MORDO
DE CIÚME / MAS EU ME
MORDO DE CIÚME

ULTRAJE A RIGOR

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