Perfil
João Bosco Bom violonista e compositor, ele faz
60 anos este mês. São mais de três
décadas de carreira passando ao
largo de oportunismos e modismos

A ética musical de João Bosco sempre teve uma única lei, parágrafo único: a invenção. Seu compromisso com a música é marcado pela firmeza de uma obra que atravessa décadas, preocupando- se fundamentalmente com o próprio fazer da canção: melodia, ritmo, harmonia, letra, canto - a grande tradição do cancioneiro brasileiro. Este ano ele completa 60 anos. São mais de 30 anos de carreira - orientada por um imperativo estritamente artístico - passando ao largo de oportunismos, modismos e afins. A importância histórica da data foi comemorada de forma inédita com a gravação de seu primeiro DVD.
O repertório de João Bosco ao Vivo - Obrigado, Gente!, é composto por alguns de seus memoráveis clássicos, todos em arranjos depurados através dos muitos anos de intimidade com as canções. Os fãs sabem que sua mineirice é restrita ao âmbito particular, pois ele é, definitivamente, um artista de palco, um músico cuja obra cresce nesse hábitat.
Quem foi a principal pessoa que o incentivou na carreira artística e que merece um agradecimento especial?
São duas pessoas: o Vinícius de Moraes e a Elis Regina. Para um jovem com apenas 21 anos, conhecer o grande poeta da literatura e da música era algo inimaginável. Estávamos em 1967 e eu morava em Ouro Preto, Minas Gerais, onde estudava, quando o Vinícius me convidou para passar férias no Rio de Janeiro. Em 1972, conheci a Elis, também no Rio de Janeiro. Quem nos apresentou foi o pessoal do jornal Pasquim. Eles acreditaram e investiram em mim. Ah, o Tom Jobim também. Tínhamos muita afinidade e diversos amigos em comum. Naquela época, as relações humanas estavam acima de tudo e isso teve uma importância muito grande para mim.
Você tem mais de três décadas de carreira e este mês completa 60 anos. Ainda dá aquele frio na barriga na hora de subir ao palco?
Sim, é a melhor coisa que existe! Significa que o respeito pela música e pelo público estão mantidos. Sou severo comigo e tenho uma cobrança muito grande. Na verdade, queria fazer como o Vinícius: colocar um gelinho no copo e tomar um uísque durante o show. Mas não consigo.
Qual foi o momento mais marcante nesses 30 anos de carrreira?
Foi entre 1989 ou 1990, durante uma turnê pela Europa junto com Caetano Veloso e João Gilberto. Fizemos um show numa cidadezinha francesa no dia 13 de julho, data do meu aniversário, e o local estava lotado. O Carlinhos Brown e o Moreno Veloso também estavam. O Caetano abriu a apresentação, depois eu aparecia e o João fechava a noite. Lembro que tocava minha parte quando, de repente, surge uma voz no alto-falante dizendo que era a última música. Levei um susto, pois faltava boa parte do roteiro para terminar. Então, entraram no palco o Caetano e o João, sentaram num banquinho e começaram a cantar: "Parabéns a você..." Foi incrível!
Duas perguntas para dois assuntos: política e futebol. Em quem vai votar e você considera Ronaldinho Gaúcho melhor que Pelé?
Nem entro nessa discussão de quem é melhor. São épocas e estilos diferentes. É preferível analisar separadamente cada um. Tanto Ronaldinho como o Pelé têm sua genialidade. No lado político, penso que o Brasil carece de outros caminhos e outros nomes para ter mais pluralidade como opção. Isso é uma coisa que não existe na política atual. Votei no Lula na última eleição e, apesar de tudo o que vem acontecendo dentro do partido que o elegeu, se ele sair como candidato, continuo acreditando na sua proposta. Vejo que as outras opções que estão se apresentando não são o melhor caminho. 2006 tem sido bom para você? Sim, não tenho o que reclamar. Em outubro vou para Europa e inicio uma turnê ao lado do cubano Gonzalo Rubalcaba. A estréia será em Istambul. Volto na primeira quinzena de novembro. |