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  NEGRO, PRETO OU PARDO?
A pergunta sempre foi fonte de controvérsias, mas agora a resposta foi surpreendente: a maioria dos jovens assume que é negra

POR DAYANNE MIKEWIS E JONI ANDERSON

FOTOS: KRIZ KNACK/SÍMBOLO IMAGENS

Decidida, a estudante Sara Silva Pereira Brito, de 16 anos, não hesitou ao assinalar o preto no censo em sua escola em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. "Eu sou negra, nunca tive dúvida disso", afirma. Parda, nem pensar. "Uma professora de história, acho que na 8ª série, explicou o que isso significa, que pardo não é raça", justificou a adolescente. "É uma maneira para a gente dizer que não é negro." Mesmo assim, a maioria dos estudantes optou pelo pardo. "É uma questão complexa, mas não a ponto de inviabilizar os estudos sobre relações raciais no Brasil e garantir políticas afirmativas para quem precisa", diz Petruccelli. "São 25 anos de estudos acadêmicos baseados no quesito cor e em questões correlatas que falam da desigualdade racial", afirma.

Segundo o pesquisador do IBGE, os pretos e pardos vivem em condições muito parecidas, mas ainda muito distantes dos brancos em termos de bons indicadores de qualidade de vida. Se isolarmos apenas os pretos, ele são os que têm as piores condições de moradia, de renda, de estudo. Além disso, o mito da democracia racial brasileira passou muito tempo pelo ocultamento da informação sobre cor e raça dos indivíduos - o que impede ou dificulta o monitoramento da discriminação racial ainda hoje. Por isso mesmo, negro, preto, pardo ou moreno - mesmo sendo termos dos mais comuns para a maioria dos brasileiros - geram polêmica, erros e acalorados discursos assertivos em todas as esferas sociais.

O dicionário Aurélio é claro: negro é o indíviduo de raça negra e de cor preta. Já a definição para pardo é o mulato, aquele que tem cor entre o amarelo e o castanho ou entre o preto e o branco. E preto significa a cor da pele dos negros, a cor do ébano e do carvão. Os dicionários em geral escorregam quando também reservam uma segunda definição, pouco louvável, para qualquer uma das três opções do título desta reportagem. Para negro, há a associação que remete ao que é muito triste e fúnebre. Pardo é o "branco duvidoso, sujo, de cor pouco brilhante". Preto também pode ser empregado a quem tem "a mais sombria de todas as cores". Por isso mesmo, não é à toa que grande parte da população negra não se reconhece como tal. E, muitas vezes, tenta disfarçar o que a realidade não nega.

Bruno Dallari, professor de lingüística da PUC de São Paulo, discorda. "A carga está na boca e na palavra de quem fala", diz ele. "Preto, por exemplo, é parte da linguagem coloquial e muitas vezes não é pejorativo. Já a palavra negro, quase sempre está relacionada à raça. A palavra pardo é a mais aceita, a que sofre menos rejeição pelo povo, é o status intermediário. Pretos e pardos não podem ser classificados do mesmo jeito porque, no olhar das pessoas, não são os mesmos", diz.

RAÇA E PODER
Para a psicóloga Maria Aparecida Silva Bento, diretora da ONG Ceert, Centro de Estudos das Relações do Trabalho e da Desigualdade, a questão semântica está em segundo plano. "Acredito que pretos e pardos precisem somar-se como negros, porque são tratados como tal pela sociedade", diz. "Em termos de estatísticas, os pardos ou mestiços vivem numa realidade que é muito mais próxima da dos negros. Entre eles há mais baixa escolaridade, alta taxa de desemprego, sub-emprego." Em busca de um denominador comum, até mesmo o governo federal reconheceu recentemente que pisou na bola ao retirar de circulação, às pressas, uma cartilha de alfabetização, que, entre outras coisas, considerava a palavra negro politicamente incorreta. "Era de uma imbecilidade tremenda", diz Bruno Dallari. "Provavelmente a cartilha ensinava que o correto, em vez de negro, é o termo afro-brasileiro", explica. "Acho ridículo e artificial. É quase uma ode à hipocrisia, uma manifestação de desprezo ou de um falso respeito."

Filha de mãe negra, parda na certidão, negra auto-declarada em vários censos, Maria Aparecida Bento fez questão de estender a questão da cor em sua vida pessoal e profissional. "O termo pardo foi introduzido no Censo e nunca mais saiu porque corresponde ao mestiço", explica. "É uma das categorias que têm menos rejeição entre os brasileiros." Segundo ela, mesmo compondo uma casta intermediária, os pardos podem - e devem - ter a consciência de que fazem parte da categoria dos negros. "Os dados sociais referentes a eles são sempre mais parecidos com o dos negros do que com o dos brancos";

 

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