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  NEGRO, PRETO OU PARDO?
A pergunta sempre foi fonte de controvérsias, mas agora a resposta foi surpreendente: a maioria dos jovens assume que é negra

POR DAYANNE MIKEWIS E JONI ANDERSON

Que o Brasil é um país multiétnico, todo brasileiro sabe. É lição de casa que se aprende não só nos primeiros anos de escola como também no dia-a-dia. A segunda tarefa, a que deixa menos à vontade, é a amplitude que o tema adquire num território continental e sui generis como este. Fruto da mistura e da herança genética e cultural de negros, índios, brancos, orientais, árabes, negros e quem mais se candidatar a preencher o melting pot racial brasileiro, o país vacila quando pára em frente ao espelho toda vez que é necessário se reconhecer.

Foi o que aconteceu sete meses atrás, quando crianças e adolescentes chegaram em casa com um questionário que haviam recebido no colégio. Era o Censo Escolar, do Ministério da Educação, que trazia um novo quesito: a cor da pele. Implantada pela primeira vez, a pergunta foi uma lição de casa complicada para muita gente. Algumas famílias não tinham a devida familiaridade com a matéria. Outras nunca tinham tentado resolver essa equação em casa antes. Em que quadradinho, afinal, marcar o "x": branco, preto ou pardo?

A julgar pelos resultados do Censo, divulgados no mês passado, a garotada se saiu melhor do que se esperava. Responder não era obrigatório e abaixo dos 16 anos quem decidia a cor dos filhos eram os pais ou responsáveis. Mesmo assim - e certamente com muitos casos de dúvida, como a que aconteceu com o jogador Ronaldo neste ano -, os números são surpreendentes: 41,4% se autodeclararam brancos, 46,2%, pardos e 9,9%, pretos. A soma dos dois últimos dá 56,1% de negros - uma virada sem precedentes na história. Pelo recenseamento de 2000 do IBGE, o país tem 52,1% de brancos, 41,4% de pardos e apenas 5,9% negros: em outras palavras, uma minoria autodeclarada de negros, com 47,3%. Será que a garotada está lidando melhor com a questão racial? De acordo com Lucimar Rosa Dias, bolsista da Fundação Ford e doutoranda na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, USP, a resposta é sim.

PERGUNTAR OFENDE?
Ela aponta a presença positiva na mídia do negro e alguns pontos de política pública implementados como motivadores do resultado. "Em resposta à Marcha Zumbi dos Palmares realizada em 1995, Paulo Renato [de Souza], então ministro da Educação do presidente Fernando Henrique Cardoso, começou a incluir a diversidade racial em todas as campanhas do seu ministério. Ele dizia que era contra as cotas, mas ainda assim se comprometeu a realizar algumas ações afirmativas", relembra a pesquisadora.

Lucimar diz que o aparente avanço é um bom indicativo, mas as dificuldades continuam. "As coisas estão avançando, mas, sem ação afirmativa, tudo o que demoraria quatrocentos anos para se materializar pode levar seiscentos. Por isso, temos de intensificar o processo", defende. Para ela, os avanços nessa área não podem ser deixados à boa vontade da iniciativa privada. "Hoje há um mercado negro, mas a escola é um lugar para mudanças muito mais profundas", diz.

"O CENSO ESCOLAR, PELA PRIMEIRA VEZ, PERGUNTOU PARA OS ALUNOS EM QUAL GRUPO ÉTNICO SE ENCAIXAVAM"

A questão é muito importante do ponto de vista das políticas públicas, mas nem todos têm o mesmo ponto de vista. Dependendo do caso, perguntar ofende. "Geralmente, as pessoas reclamam de dois aspectos: primeiro, o da terminologia utilizada [pretos e pardos]. Em segundo, há o fato de acharem que a inclusão desse quesito leva o racismo para a sala de aula", afirma Andréia Lisboa de Souza, subcoordenadora de políticas educacionais da Coordenação Geral de Diversidade e Inclusão Educacional do Ministério da Cultura. "É um equívoco enorme. Estamos trazendo o tema para reflexão. Com isso, realizamos diagnósticos e análises da realidade do sistema educacional para subsidiar a definição e implementação de políticas públicas orientadas para a promoção da eqüidade", diz Andréia. "Na área da saúde, foi um avanço. Na educação, o censo é só um começo."

PARDA, NEM PENSAR
A cor da pele é um fator de confusão para muitos brasileiros. O IBGE, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registra mais de cem tonalidades diferentes de cor e raça em um estudo específico realizado sobre a cor do brasileiro na década de 90. As respostas contidas no documento foram espontâneas dos entrevistados e surgiram definições como marrom-bombom, meia-noite, seis e meia. Mas essa é a exceção. Para o pesquisador José Luis Petruccelli, do IBGE, o que poucos falam não representa uma falta de identidade racial.

"É uma confusão ideológica proposital quando se afirma isso", garante Luis. "97% da população brasileira sabe muito bem o que é e se classifica entre as cinco denominações que o censo oferece". Para o IBGE, os cinco termos mais aceitos para classificar os brasileiros são: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. A população, informalmente, acrescentou o termo "moreno".

"AS PESSOAS SABEM, SIM, QUEM É NEGRO E QUEM É BRANCO. SÓ SE ESQUECEM QUANDO É HORA DE USUFRUIR DOS MESMOS DIREITOS""

MARIA APARECIDA SILVA BENTO,
DIRETORA DO CEERT

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