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  Dia de Branco
Determinação é o que não falta para quem escolhe tornar-se médico. O curso é longo e em período integral e a profissão exige dedicação e uma rotina de trabalho puxada. Mas vale tudo para realizar o sonho de vestir o jaleco e salvar vidas

ADRIANA REIS
FOTOS: CÍNTIA SANCHEZ

Vida de médico não é fácil. A começar pelos obstáculos que é preciso transpor até matricular-se na faculdade. Uma vez com os pés lá dentro, tem-se pela frente um curso de longa duração (seis anos), com aulas ministradas em período integral e especializações que exigem dedicação absoluta. Após concluir toda essa maratona, o profissional enfrenta um dia-a-dia puxado, com uma carga horária extensa e cansativa. Mesmo assim, quem optou pela medicina adora a profissão e garante que não a trocaria por outra.

Mas há muito poucos médicos negros no Brasil. "Comparados à porcentagem de negros da população, somos uma inexpressiva minoria", afirma o diretor de defesa profissional da Associação Paulista de Medicina, Florisval Meinão.

Médico há 35 anos, ele acredita que uma das causas são os altos custos da graduação. "O curso de medicina é elitista. Nas faculdades privadas, a mensalidade chega a R$ 3 mil por mês. Já nas públicas, a concorrência é tão grande que só entra quem faz bons colégios e cursinhos, tem professor particular e tempo livre para se dedicar somente aos estudos", opina. Entrevistamos quatro doutores negros para saber suas motivações, rotina de trabalho e trajetória para realizarem o sonho de vestir o jaleco branco e exercer essa profissão que salva vidas.

SALA DE AULA E UTI
Apesar de ter crescido com todo conforto no interior do Paraná, Dulce Pereira de Brito, 34 anos, teve que terminar os estudos numa escola pública de São Paulo porque a família precisou mudar-se. Ela sentiu a conseqüência da queda na qualidade do ensino na prova do vestibular: "Tive que fazer três anos de cursinho", lembra Dulce, que cursou a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Durante os seis anos da graduação, conviveu com diferentes reações de colegas e professores pelo fato de ser uma das cinco negras entre os 600 alunos do curso. "Há os indiferentes, os que nos admiram e os que discriminam", define. Professora de clínica-geral da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e médica intensivista da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas de São Paulo, ela aprendeu a lidar com quem desconfia de sua capacidade profissional. "Me aproximo e mostro que o preconceito é infundado."

MÉDICO DE VANGUARDA

"QUE FALTA PARA O NEGRO TAMBÉM FALTA PARA O POBRE CONSEGUIR CHEGAR AO CURSO SUPERIOR: MELHOR QUALIDADE DE ENSINO, EMPREGO E MELHORES SALÁRIOS"

IVAN JORGE RIBEIRO

O carioca Ivan Jorge Ribeiro, 53 anos, é um homem de vanguarda na medicina brasileira. Aluno da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado em cirurgia, ele foi trabalhar na Marinha assim que se formou. Lá, conheceu uma especialidade pouco comum: a medicina hiperbárica, que trata a alteração da pressão arterial em mergulhadores. Ribeiro tornou-se um dos principais especialistas nessa área e, em 1980, montou o Centro Médico Hiperbárico de São Paulo, onde trabalha até hoje. Ele aplica as técnicas do uso do oxigênio como tratamento terapêutico. Também leciona nos cursos de medicina das Universidades de São Paulo e de Campinas . Filho de operários (pai marceneiro e mãe manicure), o médico se considera uma pessoa de sorte por ter conseguido freqüentar escola privada e cursar a faculdade que queria. "O que falta para o negro também falta para o pobre conseguir chegar ao curso superior: melhor qualidade de ensino, emprego e melhores salários."

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