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  O Chamado do QuilomboX

Por Matilde Ribeiro

Matilde Ribeiro é ministra da Seppir Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
Sentir-se parte de um grupo, de uma cultura, é fundamental para a motivação pessoal. Que o digam os músicos sertanejos, quando afirmam: "ser caipira é um estado de espírito". Assim me sinto quando o assunto é quilombo. Desde que coloquei os pés em um quilombo, passei a perceber a vida com outros sentimentos. Ouço o clamor desse grupo de resistência, como um chamado ancestral e visionário: os cantos, as preces, as rodas de danças, as deliciosas iguarias, a destreza em sobreviver a uma vida injusta. Tenho aprendido a identificar as expectativas dessa população. E tenho recebido chamados muito fortes.

O primeiro foi em uma comunidade de Itapecuru-Mirim (MA), quando uma senhora que me reconhecia como "igual a seu povo e a seus parentes" me disse, afirmando estar envergonhada por não saber se expressar: "Queria, ministra, que você mandasse um recado pra o presidente. Fala pra ele que aqui não tem luz, nem água, nem casa decente pra gente morar. Que a vida aqui é muito difícil, que nós queremos ser donos da nossa terra, que nossos filhos não têm onde estudar, que tem dia que mal temos o que comer. . . " Ouvi tudo atentamente. Em seguida, lhe disse que não precisava se envergonhar de não saber falar, não saber ler nem escrever, pois não era culpa dela. Que, ali, ela era professora, e tinha me dado uma aula do que é viver naqueles espaços. Outro chamado recebi no Recôncavo Baiano, quando estive na comunidade de Kaonge. Uma mãe-de-santo me disse: "Acho que agora o negócio vai!", emocionada e emocionando a todos com sua poesia.

Vários são os clamores. Em diferentes cantos do Brasil, experimento realidades diversas que me abrem os olhos para uma vida que eu mal conhecia. Até recentemente, acreditavase que o número de quilombos no Brasil era em torno de 743. Hoje, após as ações do governo federal, a estimativa já passa de 1. 800. Ressalto, assim, a necessidade de ações concretas, das quais cito o programa Brasil Quilombola, que reúne organismos dos governos federal, estaduais e municipais, atendendo à demanda histórica dessas comunidades por regularização fundiária e políticas sociais (moradia, saúde, educação, geração de renda, etc. ). Hoje, muitas delas já são beneficiadas.

No processo de preparação da 1a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que acontece em Brasília entre 30 de junho e 2 de julho, acontecerá uma consulta quilombola. O objetivo é incorporar as reivindicações e propostas do grupo às políticas públicas formuladas a partir da Conferência. Nós, do governo, temos que transformar tais perspectivas em realidade. O trabalho é árduo, mas é uma forma de estarmos conectados à memória brasileira. Assim, as esperanças desse povo foram se tornando, também, esperanças minhas.

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