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Juca Ferreira
  Homem de cultura

Por Maurício Pestana | Foto Antônio Cruz/Abr

Juca Ferreira nasceu em janeiro de 1949, em Salvador, Bahia. desde cedo aprendeu com o pai - engenheiro e intelectual - o valor do estudo. na juventude foi militante estudantil filiado ao partido Comunista, por conta de suas posições políticas e pela luta contra a ditadura militar, foi exilado político, voltou ao Brasil , tornou-se sociólogo e um político influente. hoje, é membro do partido verde e comanda o Ministério da Cultura, tendo como grande meta, modernizar e democratizar a pasta

Sua trajetória política teve início em Salvador, cidade com mais de 80% da população negra. Esse berço cultural teve influência em sua vida política e cultural?
Foi decisiva! Em minha casa, meu pai era uma pessoa absolutamente antirracista. Eu me lembro em uma festa de aniversário, tinha uns 8 ou 9 anos, um pai de um dos colegas contou uma piada racista e meu pai disse: "Eu não gostei. Você não sabe como eu sou refratário a isso". A cena me impressionou porque criou uma certa tensão naquele momento. Aprendi uma lição com ele do ponto de vista da relação negro e branco. Depois, com o evoluir da vida percebi que parte dos meus amigos negros foram desaparecendo. Foram trabalhar, vendendo amendoim e outras atividades. Aquilo foi problematizando a minha subjetividade. Nós vivíamos juntos, brincávamos juntos, jogamos bola de gude juntos e, de repente, os negros começaram a desaparecer e poucos sobreviveram no mesmo espaço social que eu. Aquilo me marcou muito e, de alguma maneira, me sensibilizou, complementando a lição que recebi em casa de meu pai, de que isso era um problema vital nas relações humanas e que em muitos lugares a convivência entre negro e branco não é real, não é parte do cotidiano.

O senhor lutou contra a ditadura e foi exilado. Hoje é ministro e está no poder. Que lições essa trajetória poderia ser empregada pelos negros, tão carentes de poder neste país?
Não tenho uma reflexão voltada para sistematizar essa minha experiência de vida. Às vezes, até tenho vontade de escrever um livro, mas se eu escrever não será nesse sentido, e sim de registrar situações que considero relevantes para serem expostas para outras pessoas, mas eu diria o seguinte: que participei da resistência à ditadura militar e não sabia aonde aquilo iria dar. Poderia dar morte como foi para muitos, poderia dar o exílio, prisão, mas foi uma atitude importante. Percebo que na redemocratização alguns de nós estávamos exauridos e sem muita força vital para vivenciar o resultado daquilo. Infelizmente o regime militar sufocou uma geração que tinha um impulso democrático muito grande e somente mais tarde essa geração foi conseguindo se afirmar no cenário político e substituir, em boa parte, a geração anterior. O presidente Lula também é dessa geração, uma liderança operária que teve um papel importante naquele momento, principalmente no segundo momento, o da resistência, quando iniciou o declínio definitivo da ditadura. A eleição do presidente Lula representou a culminância desse movimento democrático.

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