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  Gingas do Brasil
Personagens inesquecíveis do samba

texto e ilustrações LEANDRO VALQUER

Mestres do Partido alto

É um samba em que o estribilho repete-se, como os ciclos da natureza, alternados por cantos solos, soluções originais aplicadas por cada indivíduo da roda, a cada novo instante, onde esses versos improvisados são intercalados novamente pelo refrão. Essa alternância pode durar horas e provocar um transe coletivo que atravessa uma noite inteira. A prática do partido-alto é de origem rural, difundida na década de 30 pelas “tias baianas” em suas festas de terreiro no Rio de Janeiro.

Foi chamado assim pela maestria exigida no improviso, pela dificuldade imposta aos adversários num duelo que era caracterizado por versos longos de seis ou mais estrofes, tudo isso com coreografias também improvisadas no centro da roda.

O primeiro samba gravado e registrado, Pelo Telefone nasceu dessa maneira, tanto que além de Donga e Mário de Almeida, existe uma dezena de possíveis co-autores da canção. Vemos então, que o partido-alto é o pai do samba moderno, que só poderia ter nascido estrategicamente numa cidade em processo de desenvolvimento industrial. Fica cada vez mais difícil ver uma roda de partidoalto de raiz, já que poucas vezes improvisa-se e os versos muitas vezes são decorados, mais ainda existem grandes mestres nessa arte, como Paulinho da Viola, Monarco, Helton Medeiros, Nei Lopes, Arlindo Cruz, Zeca Pago dinho, Dudu Nobre, entre outros...

Candeia

Moleque, zanzava no colo do pai Antônio Candeia, flautista de batuque em batuque, diz que teve motivos de sobra pra não gostar de samba. Por quê? “No meu aniversário não tinha bolo, nem velinha, essas coisas de criança. Era feijoada mesmo, limão e muito partido-alto”. No Natal a mesma coisa. Nestas festas, a frequência era de Paulo da Portela, João da Gente, Zé com Fome entre outros bambas do bairro Oswaldo Cruz.

Fantasiado de mecânico em 1950 aos 14 anos, faz seu primeiro desfile na Vai Como Pode, escola posteriormente afamada como Portela. Sente que é sambista, compõe, frequenta a casa de Dona Esther, onde jogou capoeira, cantou partidos, aprendeu jongo, muito em voga em Madureira e Oswaldo Cruz. Aos 17 anos, passa a perna no veterano Manacéia e vence sua primeira disputa de sambas-enredos da Portela, em parceria com Altair Prego. É nesse Carnaval que a escola recebe nota máxima em todos os quesitos. Em 1961, Candeia concorre a uma vaga na Polícia Militar e é aprovado em terceiro lugar no concurso. Leva fama de carrasco, é responsável pela prisão de diversos sambistas, como Nenê Russo e Dominguinhos do Estácio. Na esquina da Rua Marquês de Sapucaí com a Presidente Vargas, balearam Candeia

Era 13 de dezembro de 1965. Socorrido quase morto no hospital Sousa Aguiar, sobrevive, mas a cadeira de rodas a partir dali seria seu “trono” inseparável. O samba sofria intensas modificações. Candeia, inconformado, funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra Quilombo, pela consciência social do negro, pela resistência da cultura popular. Para isso busca transcender suas mensagens para além da canção popular. Escreve o livro Escola de samba - Árvore que esqueceu a raiz, em parceria com Isnard Araújo, conquistando também segunda colocação em um concurso de monografias sobre Paulo da Portela. Antônio Candeia Filho deixou o trono aos 43 anos, sempre sendo lembrado como militante, quilombola, e dos melhores partideiros de todos os tempos.

Xangô

Nasceu no Rio comprido, bairro do Rio de Janeiro, mas passou a infância no sítio de Paracambi, na Baixada Fluminense, onde aprendeu um modo rural de viver, além da mãe ser mineira, de Ubá, e o pai paulista, de Campinas.

Da escola de Rocha Miranda, Xangô é convidado para desfilar em uma ala da Portela e lá conhece o mestre Paulo, que admira sua voz. Paulo troca a Portela pela Lira do Amor. Xangô acompanha o mestre, mas morrendo de vontade de ir à Mangueira, confessa: “Mestre”, estou com a ideia de ir para uma escola que admiro. Eu quero ir para a Mangueira”. Paulo da Portela responderia: “Olha, a casa é sua lá porque eu tenho grande amizade, grande intimidade com o Cartola e se você precisa de uma referência, eu estou aí para dar para você”. Mesmo assim, Xangô tem que provar suas habilidades num concurso de partideiros, o qual acabou vencendo, assim pulando vários estágios e consagrando-se diretor de Harmonia e integrante da ala de compositores. Até 1951, foi puxador oficial dos sambas-enredos, passando o posto para Jamelão. Porém, Xangô da Mangueira é essencialmente um partideiro, um versejador, improvisador. Nos anos 70 grava diversos discos com partidos seus como o Rei do Partido-Alto. Foi também produtor, organizando um pagode semanal no teatro Arena. Seus sambas e personagens refletem a fusão roça-periferia, ou roça-cidade como retrata em um de seus partidos-altos: “Moro na roça iaiá/ nunca morei na cidade/ compro jornal da manhã/ pra saber das novidade”. Em 2005 lança o CD Recordações de um batuqueiro, e em 2006, um Livro-CD intitulado Xangô da Mangueira. Olivério Ferreira (seu nome verdadeiro) morreu em 8 de janeiro de 2009.

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