Michel Gomes, 19 anos, conheceu os encantos do cinema ainda cedo, aos 10 anos de idade. A oportunidade surgiu graças às aulas de teatro na comunidade de Vila Vintém, no Rio de Janeiro. "Eu estava muito interessado, porque além de aprender uma cultura, eu saí um pouco da rua. Sabe aquelas coisas de menino? Jogar futebol, bola de gude... Fui um dos primeiros a fazer parte do grupo que, aliás, funciona até hoje", conta o ator. Quase um ano depois lá estava ele entre os jovens (escolhidos em oficinas de teatro dos morros cariocas) que fariam parte do elenco de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Ele interpretou o personagem Bené, na primeira fase.
| No cinema, outra vez Michel Gomes tomou mesmo gosto pela sétima arte. Em breve, os fãs poderão conferir o seu talento no filme Salve Geral - O dia em que São Ppaulo parou (foto acima), que conta como o Primeiro Comando da Capital (PCC) aterrorizou a capital paulista em um fim de semana do mês de maio de 2006 |
A repercussão do filme surpreendeu?
Pois é, ninguém esperava aquele sucesso todo. Imagina, o primeiro filme feito com elenco apenas do morro leva o público ao cinema e recebe quatro indicações ao Oscar. Fiquei muito feliz, apesar de não ser o personagem principal, eu estava no elenco, fiz parte de tudo aquilo. Acharam muito verdadeira a atuação de todos. E trabalhar com o Fernando Meirelles, né cara? Sem palavras!
Ali, sua vida mudou?
Disse pra mim: "Se Deus quiser, vou fazer outros filmes que serão sucesso". Eu e mais alguns atores do elenco, como o Douglas Silva, fechamos contrato com a produtora do Fernando, a O2, para a série e o longa Cidade dos Homens. Até que fui indicado para fazer os testes do Última Parada 174, do Bruno Barreto. Eu não queria ser mais um entende? Queria muito protagonizar o filme. Pedi muito a Deus e me preparei para isso.
"Você tem medo de morrer?"
A saga de Michel para conseguir o papel principal foi dura e, entre oficinas e testes, se passou quase um ano. "Às vezes precisava pedir o dinheiro da passagem emprestado", conta. O primeiro teste foi de improviso e dava o tom da carga pesada do filme. "O Bruno me disse: você tem medo de morrer? Porque você está dentro de um ônibus rodeado por policiais que querem te matar. Dá um jeito de sair daí!", relata Michel. A cena era um dos momentos finais da conturbada vida de Sandro Barbosa do Nascimento, no trágico episódio de uma tarde de junho de 2000, no Rio de Janeiro (leia boxe). Confirmado como protagonista, restava ao ator convencer e mostrar frieza em cenas pra lá de dramáticas.
O clima nas filmagens chegou a ser pesado?
Por ter sido um fato real, a entrega era maior. Na cena do ônibus, que dura aproximadamente 8 minutos, ficamos 4 dias para filmar. O clima não era tão bom ali no Jardim Botânico. Nessa mesma sequência, quando o Sandro bate com a cabeça da refém no encosto do banco, eu nem senti na hora, mas foi forte, tanto que depois fiquei preocupado e pedi muita desculpa para a atriz. Fiz o personagem com toda a verdade do mundo. Quando diziam "ação", eu botava pra quebrar mesmo, estava muito concentrado.
Qual a sua opinião sobre o Sandro, o sequestrador?
Não querendo colocá-lo como bonzinho, longe disso, mas a trajetória dele foi complicada. Viu a mãe ser assassinada, foi criado sem base familiar, nas ruas, sem estudo, sem projetos. Ele foi um dos sobreviventes do massacre da Candelária, já tinha aquilo na cabeça e, o pior, se entregou às drogas, que é a pior coisa que um ser humano pode fazer. Para sustentar o vício, a pessoa faz qualquer coisa.
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