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Juca Ferreira
Homem de cultura
Por Maurício Pestana | Foto Antônio Cruz/Abr
O Mais Cultura - programa com verba orçada em quase cinco milhões de reais - tem grande foco nas periferias das grandes cidades, no qual a juventude negra excluída se encontra. O programa tem um recorte racial?
Ele tem também um recorte racial, mas ao trabalhar periferia, está inevitavelmente trabalhando a inclusão de uma parcela considerável dos negros que, após a abolição, foram parar nas favelas e periferias das grandes cidades. A questão que você levanta para essa pergunta é vital e eu acho que a democracia vive basicamente de políticas universilizadas, mas em sociedade onde há reprodução das desigualdades, tem de existir políticas focadas, exatamente para permitir que você reduza a desigualdade. Então sinto a necessidade de combinar políticas já universalizadas com políticas focadas e a cominação das duas dimensões, que dá possibilidade de nós evoluirmos mais rapidamente com a sociedade igualizada.
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Então o senhor é favorável à política de cotas?
Eu sou absolutamente favorável às políticas afirmativas, às cotas e coisas do gênero, porque contribuem para que rapidamente se tenha a ocupação de espaços sociais que naturalmente demoraria décadas para que os negros tivessem acessos. Agora, não sou a favor de racializar o conflito. É como aceitar a lógica daquilo que a gente nega, é necessário para todos, não só para os negros reconhecerem que há uma diferença racial no Brasil, muita desigualdade e exclusão da parte de alguns, inclusive o racismo com ideologia que justifica a diferença. Mas a construção da igualdade faz parte, ultrapassar o limite imposto pelo racismo e compreender que a diferença sociológica existe, porém, do ponto de vista humano, não existe diferença. A construção de uma política de igualdade passa inevitavelmente pela superação dos limites subjetivos que o racismo impõe. Qualquer homem ou mulher de bem tem que ter sensibilidade de combate ao racismo e ser um militante antirracista.
Por várias razões, o negro no Brasil não tem acesso ao empresariado, portanto a Lei Rouanet para nós é utopia. O que podemos esperar da reformulação da lei?
Olha, essa reformulação é democratizante, procura superar os limites, as barreiras que foram criadas e que permitem que um número pequeno de produtores culturais monopolizem o acesso à Lei Rouanet e aos recursos públicos. A reforma é feita no sentido de abrir para os produtores culturais todos os segmentos e de todas regiões do Brasil, abrir também para quaisquer manifestações culturais, de todas as camadas das sociedades, porque como está estruturada hoje, o conceito de cidadão foi substituído pelo conceito de consumidor. A empresa só se interessa pelas manifestações culturais dos segmentos que tem poder aquisitivo, e a consequência disso é, inevitavelmente, o estímulo da atividade cultural ligada à classe média e o desinteresse absoluto por uma série de manifestações, incluindo as das camadas pobres que têm uma predominância maior de negros.
Como é tratada a transversalidade na questão racial no Ministério da Cultura, ou seja, a presença negra nas outras esferas, como a Funarte, o Iphan, a Secretaria da Diversidade...
Todo o trabalho, desde que nós chegamos ao ministério, é no sentido de democratizar o conceito de cultura, assimilar diversidade como um patrimônio e não como um problema. Por exemplo, o Iphan teve que sair da exclusividade da casa grande e assimilar a experiência da senzala como parte do nosso legado da formação da sociedade brasileira. Estamos prestes a abrir nossas relações com os brasileiros que são desses movimentos migratórios. Acertei a minha ida para uma parte do Brasil, mais precisamente no Paraná, colonizado por ucranianos. São brasileiros e querem a visita do ministro da cultura para que sejam incorporadas como parte do patrimônio brasileiro as igrejas e todas as manifestações culturais.
Como a cultura negra está inserida nesse contexto?
A cultura negra tem uma dimensão importante. No Mais Cultura, o principal programa de acessibilidade do ministério, as periferias terão prioridade e irão receber equipamentos culturais, bibliotecas e atendimento cultural prioritário. Nem todas as periferias do Brasil são predominantemente negras. Para a minha surpresa, em alguns lugares do Nordeste a periferia, às vezes, é mais diversificada, então esse processo, sem racializar, presta um grande serviço, o de incrementar o acesso em parcelas da sociedade discriminada serviços culturais que até então não tinha.
Qual o principal legado que o ministério da cultura poderá deixar para a comunidade negra, que teve o senhor como um dos homens mais influentes, primeiro como secretário executivo e, depois, como ministro da cultura?
Parte do meu tempo em toda a minha trajetória de vida foi sempre ocupada na luta contra o racismo. Na Europa, quando estive no exílio, fui de um movimento chamado Música Contra o Racismo. Depois que voltei ao Brasil, não foi diferente, como secretário do ambiente na Bahia, ajudei a criar e executar o projeto Jardins das Folhas Sagradas, que usa todo cabedal do candomblé, que tem raízes para além do território que os terreiros regem e administram, porque é uma cultura fartamente presente na sensibilidade das pessoas. Lembro-me que, quando cheguei do exílio, eu era um dos poucos não negros que acompanhavam as manifestações contra o racismo lideradas pelos blocos afro e pelo Movimento Negro Unificado (MNU). Então tenho uma tradição, porque desenvolvi uma sensibilidade dessa questão e acho, profundamente, que o combate ao racismo não é uma tarefa apenas para os negros. Esse entendimento do que é a questão racial, sem dúvidas eu deixarei aqui.
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