Como você encara a responsabilidade de ser o vereador negro com a maior votação da história na Câmara Municipal de São Paulo?
Recebi todos esses votos com muita humildade e com um senso de responsabilidade muito grande. As pessoas sempre aplaudiram as minhas ações sociais pelo fato de eu ser um artista muito envolvido com essas questões. Agora, quando depositam o voto nas urnas para que você seja um representante público, é porque estão querendo que você tenha mais responsabilidade com as coisas dessas pessoas, então, eu sinto, sim, um peso e acho que sou capaz de carregá-lo, inclusive de reverter para que ele se torne mais pesado lá na frente.
Nossa presença na política partidária e eleitoral é quase inexistente. Dos 81 senadores, apenas Paulo Paim e Marina Silva. Enquanto deputados e vereadores são poucos. Você acha que o negro tem dificuldade em votar em negro, já que somos a metade da população?
Isso é um fato que acontece. Acho que a minha eleição foi uma exceção. O fato de eu ter ido à televisão e ser chamado de negrão, de fazer o concurso da mais bela negra entre outras coisas, criou um conceito, mas que não foi partidário. Na verdade, não temos mais um partido onde a gente se encontre, uma unidade que possamos falar: "Olha, esse aqui representa a gente". Eu tenho essa pretensão, de poder ter um canto político para discutir as questões étnicas, e o PC do B é um partido que está de braços abertos para isso. Quero fazer esse papel, somente assim quando sentirmos que temos um espaço nosso, que não são favores, que não são apoios para algumas ONGs de negros, quando quebrarmos esse paradigma, nós sentiremos esse conceito de voto étnico que não temos no Brasil.
Um de seus slogans de campanha foi: "O gueto vai invadir". Explique isso melhor.
Acho que está faltando representação popular na política. A nova legislação torna a política mais restrita do que ela é, primeiro porque nos partidos existem os 'caciques' e, quem não tiver uma aprovação de renda ou não tiver o nome limpo não pode se candidatar. Isso é uma maneira de se agregar, de eliminar e de fazer com que a periferia não participe do processo político ativamente. Você só serve como eleitor e não como candidato. Quando eu disse que o gueto vai invadir é para marcar um pouco: "Olha, tem um cara que é do gueto e vocês não vão conseguir barrar!"
"As pessoas só saem da periferia para o centro porque não existe estrutura. Se eu puder levar carinho, esporte, educação, música e emprego para a periferia, o jovem não vai querer sair de lá"
Você acha que, a exemplo dos Estados Unidos, nós podemos em breve ter um presidente negro?
Sim! Acho também que o presidente Lula, antecipadamente, cumpriu esse papel. A gente sentiu nele um operário, um negro, um pobre, um lixeiro, um pedreiro, um operário em si. Ele já nos representa em tudo isso, mas com o passar do tempo e com a luta ganha, você tem novas batalhas. O povo que luta para ter uma melhor qualidade de vida está sempre em mudança constante. Acho que chegou o momento de a gente pelo menos se posicionar. Nós temos figuras competentes, com experiência e força política capazes de exercer esse papel na presidência da República, como o Paulo Paim, o ministro Orlando Silva, Joaquim Barbosa. Agora, é necessário colocar esses nomes mais próximos da comunidade, de pessoas que votariam neles. Por incrível que pareça a maioria dos negros que se tornam poderosos politicamente deixam de ter esse vínculo com a periferia, onde exatamente estão aqueles que têm o poder de elegê-los.
Comenta-se que seu próximo desafio nas urnas será concorrer a uma cadeira no Senado. Isso procede?
Sim, é uma verdade. Esse é o meu desejo desde o início. Sair como vereador foi um acordo que eu tive com o PC do B, de servir como uma formação política para mim e para o partido ter um presença política mais marcante aqui em São Paulo. Nós elegemos dois vereadores com essa decisão, eu e o Jamil Murad. Agora vou para 2010 pleitear o cargo de senador. É um desejo meu e é necessário criar esse desejo também na classe política do partido e na população.
Você é um homem de sucesso na música, na vida empresarial e, agora, mais recentemente na política. Quais dessas atividades são mais difíceis e quais as mais fáceis de levar?
Eu me envolvo com seriedade em tudo o que faço e, tendo seriedade, não há facilidade. No campo profissional é difícil. A música, por exemplo, ainda que as pessoas encarem como entretenimento, é um mercado competitivo, desleal, que ainda não é tão regulamentado, mas que eu consegui vencer, e foi o primeiro mercado que eu desbravei. Então, eu diria que o que mais me dá prazer na vida é continuar cantando, o que não impede as minhas ações empresariais e políticas. Até por isso que eu me aventurei e estou de cabeça nesse processo político, mas música é o segmento que mais domino.
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