Entrevista
ANDERSON SÁ
Qual foi a relação do poeta Waly Salomão (1943-2003), que dá nome ao Centro Cultural, com o AfroReggae?
Ele deu uma força cultural pra gente, nos apresentou pessoas influentes, nos deu o acesso. Por mais que as pessoas que fundaram o AfroReggae tivessem o mínimo de conhecimento musical e cultural, não tinham o acesso, que era muito restrito. E foi o Waly que fez essa ligação com a gente.
Como surgiu a idéia de fazer esse Centro Cultural?
Nunca tivemos uma sede. Quando viemos para cá, ficamos na Casa da Paz, depois fomos para uma casa atrás, onde hoje é o Espaço Multiuso dentro do Centro Cultural. A banda começou a fazer shows, fizemos duas turnês pela Europa e o dinheiro estava entrando bastante. E nós temos um lance de que 30% do que a banda ganha em shows fica para o trabalho social da favela. A gente tem esse acordo. E eu também faço isso. Fiz um comercial pra refrigerante e dei 30% do meu cachê pro trabalho social.
E por que você, pessoa física, também faz isso?
Também fui formado pelo AfroReggae. Eles gastaram comigo, me deram qualificação, me formaram. Então, isso é um agradecimento meu. E nós agimos assim com todos os que entram para o nosso grupo.
Assim que entram, já ficam sabendo disso: que tem que dar os 30% quando realizarem trabalhos extras. Nada é por escrito. Tudo é verbal, mas a gente assume e cumpre isso numa boa.
E os outros centros culturais?
Temos mais quatro bases. No Cantagalo, por exemplo, funciona o núcleo de circo, e em Parada de Lucas, o de tecnologia digital. Centro Cultural mesmo é esse que vamos inaugurar aqui. Mas a ideia é que, no futuro, os outros também passem por reformas.
Vão abrir outras bases?
Não. É uma decisão interna da nossa diretoria. Não abrir mais nenhuma frente em nenhuma outra comunidade. São 280 funcionários, atualmente, são 3 mil jovens, tem uma galera que recebe bolsa e é uma demanda grande de trabalho. O que a gente quer e o que espera, é formar uma galera que vai levar nossa ideia para outras comunidades.
Por quê?
Porque senão, a gente não teria como cuidar de tudo da maneira que gostamos de cuidar. Se a gente quisesse, a gente ganhava muito dinheiro emprestando a nossa marca. Por exemplo, a prefeitura de Amsterdam, de Hannover, de Trinidad & Tobago, São Paulo, Recife e Belo Horizonte, entre outras cidades, sinalizaram para ter um AfroReggae lá. Ou, apenas, emprestar o nome da nossa marca para eles montarem alguma coisa. Eram milhões mesmo! Mas não aceitamos, porque íamos virar uma franquia, ia perder a qualidade e a essência.
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