ÁFRICA > MOÇAMBIQUE
Tirania? Não!
Até no hino nacional seu povo rejeita os tiranos e a escravidão

Quando penso em Moçambique, me lembro do Freitas, com seu carregado sotaque lusitano. Nos conhecemos na faculdade. Refugiado moçambicano, branco, alto, magro, olhos azuis, cabelos loiros. Mas, se quisesse ofendê-lo, bastava chamá-lo de português. “Sou a quinta geração de minha família a nascer em Moçambique, oh, pá!”.
Com a mulher e os filhos, Freitas fugiu da capital Maputo, após a independência, em 1975. “Minha mulher queria que fôssemos para Portugal. Mas o que eu ia fazer lá? Lutamos a vida toda contra aquele país. Eu mandava dinheiro para a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) para fazer a revolução. Preferi vir pro Brasil.” Assim, esse empresário, que possuía um magazine de três andares em seu país, veio vender pipa na marginal do Tietê, em São Paulo. Formouse em Comunicação Social e fez mestrado.
Aprendi a ver Moçambique através do olhar apaixonado do Freitas, que foi obrigado a deixar o país, por ser branco e pequeno burguês, num país negro que se tornou socialista. Ele não foi expulso. Mas o rompimento com Portugal fez a população negra, vitoriosa, ver em todo branco um opressor português. Mas nem por isso ele passou a odiar os negros e continuou orgulhoso em ser moçambicano.
Moçambique é um belo país do outro lado da África, de frente para o Oceano Índico. Como sempre negociou com o mundo árabe, o país desenvolveu muito as técnicas do comércio e da economia estável. Nunca conheceu a inflação, nem mesmo nos tempos coloniais. Hoje é um dos 14 membros da SADC Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), que reúne os países mais prósperos do continente africano.
No passado, um de seus mais famosos e ricos impérios foi o dos Mwenemutapas (ou Monomotapa). Desde o primeiro século da era cristã, os povos bantus desenvolveram na região tanto a agricultura diversificada quanto a metalurgia.
Portugal recebeu a região, como colônia, pela Conferência de Berlim, que retalhou a África, em 1885. A relação colonial foi sempre conflituosa, principalmente nos anos 60 e início dos 70. Com a independência, em 1975, o socialista Samora Moisés Machel, comandante da Frelimo, se tornou seu primeiro presidente.
Samora morreu em um desastre de avião, em 1986, levando consigo os ideais socialistas. No ano seguinte o país se tornou capitalista. Ex-ministra da Educação de Moçambique, sua viúva, Graça Machel casou-se em 1998 com o líder sul-africano Nelson Mandela.
“Flores brotando do chão do teu suor / Pelos montes, pelos rios, pelo mar / Nós juramos por ti, ó Moçambique / Nenhum tirano nos irá escravizar”, diante desses versos do hino nacional, duvido que meu amigo Freitas, que ainda vive no Brasil, não derrame suas lágrimas.
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