O primeiro e mais conhecido chargista negro do Brasil começou sua trajetória dentro do movimento pela igualdade racial logo na adolescência, escolhendo o Cartum como forma de protesto e conscientização. “Além de comunicador, sou ativista árduo do movimento negro. Desde jovem participava de reuniões, das passeatas e comecei a desenhar sobre o assunto. Sempre estive ligado à militância do movimento negro. Meus primeiros trabalhos políticos publicados foram ainda na adolescência e já era sobre a questão racial”, conta.
Pestana, como é conhecido, teve presença marcante em várias publicações nacionais e internacionais e produziu diversas cartilhas e livros sobre a questão racial no Brasil, quando se tornou referência na arte de educar e conscientizar através dos desenhos e do humor, gerando reconhecimento e convites para palestras internacionais, como no lançamento de seu livro na Europa e o reconhecimento profissional nos Estados Unidos. Hoje, tem registrado a publicação de 42 cartilhas e 12 livros sobre o tema.
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Aos 43 anos, reconhecido cidadão brasileiro, com títulos de cidadão soteropolitano e cidadão paulistano, Pestana se vê diante de um imenso desafio: presidir o Conselho Editorial da nossa revista. Nesta entrevista vamos saber um pouco mais sobre esse grande profissional que entra em campo para reforçar ainda mais o trabalho que RAÇA BRASIL vem desenvolvendo ao longo desses 11 anos.
| Raça entrevista |
Maurício Pestana |
COMO VOCÊ INICIOU A CARREIRA?
Profissionalmente foi no inicio dos anos 1980, primeiro para jornais de bairro, depois no Pasquim, paralelo a tudo isso fui publicando trabalhos em boletins do Movimento Negro. Eu tinha uns 17 anos, nunca fiz parte de um grupo específico do Movimento Negro. Quando a palavra de ordem eram o combate ao racismo e a inclusão do negro, sempre estive participando e colaborando nesses quase 25 anos de carreira com 42 cartilhas e 12 livros publicados.
QUAL FOI O SEU PRIMEIRO TRABALHO DENUNCIANDO O RACISMO BRASILEIRO?
De repercussão nacional foi a cartilha “O negro no Mercado de Trabalho”. Ela trazia um pouco de desenhos demonstrando com humor como se dava a discriminação racial no Brasil, foi um marco, primeiro por ter sido publicada dentro de um órgão do Estado, talvez o primeiro a reconhecer o racismo após a ditadura.
VOCÊ ACHA O BRASIL UM PAÍS RACISTA? POR QUÊ?
Sim. A origem desse racismo está, sem dúvida, nos quase 350 anos de escravidão que se praticou aqui. Éramos escravos porque éramos negros vindos da África ou nascidos no regime escravocrata, e essa distinção e exclusão permanecem até hoje. O racismo sobrevive por conta da discriminação no mercado de trabalho, nos meios de comunicação e por parte dos serviços de segurança e repressão policial, resultando tudo num forte preconceito da sociedade.
QUAL A RECEITA PARA ACABAR COM ESSE RACISMO?
De início, a aplicação de políticas públicas que possam quebrar sua espinha dorsal da exclusão, o investimento mássico em educação, pior que a falta de políticas públicas e a conivência do estado brasileiro que, em muitos casos, contribui para esse sistema racista. Falo do racismo institucional, a discriminação que o próprio estado faz de seus cidadãos. Exemplo: no Brasil a maioria dos alunos das universidades públicas são brancos e de classe média, só que a metade da população que contribui com seus impostos é negra.
COMO ESPERA CONTRIBUIR PARA AS MUDANÇAS DA RAÇA BRASIL?
Transferindo a vasta experiência adquirida ao longo dos anos no trato da questão racial para a revista, tornando-a assim uma publicação mais política, mais opinativa e mais participativa dos nossos problemas neste país e no mundo.
QUAL O GRANDE DESAFIO?
Ajudar a transformar a revista a médio e longo prazo na principal referência da comunidade negra neste país.