O BRASIL RECENTEMENTE FOI MANCHETE DE PRIMEIRA PÁGINA EM VÁRIOS PAÍSES AFRICANOS, PELOS ATAQUES RACISTAS A ESTUDANTES DAQUELE CONTINENTE. EM SUA UNIVERSIDADE, OS ESTUDANTES O ACUSAM DE TER SIDO LENTO NAS APURAÇÕES, O QUE FOI FEITO E CADÊ OS CULPADOS?
É natural o desejo de justiça imediata. É meu desejo também, mas a justiça brasileira é lenta, temos uma investigação em andamento na qual estão a polícia federal e a polícia civil. Neste caso temos duas polícias, porque temos dois crimes: um contra o patrimônio público federal e possivelmente crime de racismo e xenofobismo, já que os ataques se deram somente contra africanos; temos uma investigação também sendo feita pela universidade; houve até coleta de DNA, porém essas investigações são lentas. Estamos trabalhando para pegar e punir os responsáveis o mais breve possível.
O SENHOR E A UNB FORAM DURAMENTE CRITICADOS QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE AFASTOU UM PROFESSOR POR PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS. COMO FOI ISSO?
O professor punido tem muito acesso à mídia. Ele é um cientista político famoso e consultor político, freqüentemente está na mídia, então era natural que ele utilizasse esse espaço para se defender. Nossa universidade não tem tradição de jogarmos ao vento os processos disciplinares e por isso mais uma vez fomos atacados de forma desigual.
NA ÉPOCA FALOU-SE MUITO NA MÍDIA EM "LIBERDADE DE CÁTEDRA" DO PROFESSOR QUE NÃO FOI RESPEITADO.
O que se discutiu naquele caso foi o direito de cada indivíduo. Você não pode, só porque é professor, ofender ou pisotear na sala de aula seus alunos por serem negros ou pertencerem a qualquer outro grupo social que não seja o seu. Isso é falta de humanidade e de profi ssionalismo e foi por isso que o professor foi condenado, porque violou as normas do serviço público. Não censuramos o professor e nenhum professor na UNB; cada um aqui tem direito de ser marxista ou de não ser marxista; de ser direita ou esquerda, ou seja, lá o que for. Só não tem o direito de humilhar nenhum aluno ou grupo social, pois isso é violar as normas do serviço público.
PROVAVELMENTE SUA FAMÍLIA E SEU CÍRCULO DE AMIGOS DEVEM SER TODOS BRANCOS. COMO ELES ASSISTEM À SUA LUTA E OS ATAQUES QUE O SENHOR TEM RECEBIDO POR SER DEFENSOR DE AÇÕES AFIRMATIVAS PARA NEGROS?
Muita gente que não aparece e não se manifesta publicamente são brancos e solidários a minha luta; o sentimento é que esta é uma luta pelos direitos humanos, pela inclusão social. Minha família tem sido inteiramente solidária; há preocupação, sim, pela regularidade com que sou atacado pela mídia, mas se tranqüilizam, pois compreendem que estou trabalhando em algo que é urgente no país: a inclusão social no sentido amplo e irrestrito! Aqueles que são contra qualquer tipo de ação neste sentido, imaginando que um país de paz e tranqüilidade será possível sem esses avanços, estão enganados. O Brasil do jeito que está, com essa exclusão toda, vai explodir a qualquer momento, é só uma questão de tempo. O que esses setores não entendem é que estamos dando uma opção diferente para essa explosão iminente. É nossa missão dar oportunidade para as pessoas que vão assegurar nosso futuro como sociedade, como seres humanos, sem que simplesmente caiamos na barbárie. E minha família e meus amigos entendem isso!
QUAL O MAIOR RISCO QUE O SENHOR VÊ PARA AS AÇÕES AFIRMATIVAS HOJE NO BRASIL?
A injustiça e a desigualdade são tão gigantescas que existe uma pressão muito grande dos movimentos negros para que haja avanços em ritmos acelerados. A resistência na sociedade branca também é muito grande e, quando estamos entre esses dois pólos, aí vem o desafi o: como avançar na igualdade de maneira a assegurar continuidade e evitar que em algum momento aconteçam falhas, pois aí o outro lado estará pronto para dizer: está vendo; isso está errado, como foi a tentativa que fi zeram de nos desqualifi car no caso dos gêmeos. Então, para quem está no meio, é como se estivéssemos caminhando na direção de uma navalha e tivéssemos que fazer de tudo para desviar. Por isso o aconselhamento com o pessoal do movimento negro, o pessoal dos direitos humanos e da academia é vital para não errarmos, mas o risco é sempre iminente.
COMO O SENHOR DESEJA SER AVALIADO DAQUI A 10 OU 20 ANOS?
Desejo que eu e a UNB sejamos avaliados como quem produziu vitórias permanentes para a sociedade brasileira.
NA SUA OPINIÃO, O QUE O PAÍS DEVERIA FAZER PARA ACABAR COM A BRUTAL DESIGUALDADE ENTRE BRANCOS E NEGROS?
Existem várias experiências no mundo, como é o caso da África do Sul e dos Estados Unidos, que aplicaram soluções de longo alcance: algumas evidentes como oferecer escola de boa qualidade a seus cidadãos e a todos os grupos sociais nas periferias, nas favelas. Em todo lugar, a educação é um grande emancipador e a qualidade da educação no Brasil é um instrumento de exclusão, porque ela se distribui de forma totalmente heterogênea. Então os grupos sociais que têm acesso à educação de boa qualidade levam vantagem diante dos demais; outra forma seria espalhar as ações afi rmativas por toda a sociedade. É mais fácil aplicar ações afi rmativas no setor privado que no setor público, as empresas têm que assumir esta responsabilidade; elas têm que aplicar no processo seletivo de seus funcionários, diretores ajudando assim a diminuir e até acabar a diferença entre negros e brancos no país. Está comprovado que essas ações inclusive aumentam a produtividade e a criatividade.
QUE CONSELHOS O SENHOR DARIA PARA OS JOVENS ALUNOS COTISTAS QUE EM BREVE SAIRÃO DA UNB E VÃO ENCONTRAR UM MERCADO DE TRABALHO SEM COTAS E PROVAVELMENTE SERÃO QUESTIONADOS POR TEREM SIDO COTISTAS?
O diploma e a formação deles são iguais aos de qualquer aluno aqui na UNB. A diferença foi o acesso que lhes era negado pela discriminação histórica no Brasil. Eles aqui dentro e fora serão distinguidos, não existem nenhuma proteção ou tratamento diferenciado quando eles forem para o mercado de trabalho. Levarão uma grande vantagem: o diploma de uma universidade respeitada em todo o país e isso não será mais um privilégio apenas de uma grande maioria branca.
QUAL O SEU SENTIMENTO DEPOIS DESSES ANOS TODOS DE LUTA?
É o sentimento de ganho e que a causa dos direitos humanos não se larga. A forma de abordar a metodologia pode variar, mas a cara da universidade neste país mudou e este é um avanço para o Brasil!
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