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Edição 114 - Setembro/2007
 
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  Timothy Mulholland

Professor Timothy é conhecido pelo respeito, pela habilidade e pelo equilíbrio com que dirige os colegiados. O seu conhecimento sobre a Instituição e as normas tem agilizado a resolução de problemas da Universidade de Brasília em pequena e larga escala, estar frente a frente com ele o inimigo número um da mídia brasileira na questão das cotas raciais foi uma experiência inesquecível, não só pela importância da entrevista, mas também pelo novo momento que a RAÇA BRASIL vive. O ativista, cartunista e escritor Pestana, dava lugar ao representante dos leitores neste novo espaço as "Páginas Pretas" destinadas a negros e não negros que estão construindo uma nova página na história deste País. Algumas das perguntas talvez o ativista Pestana já tivesse a resposta, mas o leitor não e este será o desafi o de agora em diante: trazer às páginas da revista aquilo que as outras publicações não trazem: informação, indignação e novos horizontes para o nosso povo.

NOS ÚLTIMOS MESES O SENHOR E A UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - UNB, TÊM ESTADO NO OLHO DO FURACÃO COM RELAÇÃO ÀS QUESTÕES RACIAIS E O SISTEMA DE COTAS. AS CRÍTICAS VÊM DE TODOS OS LADOS, PRINCIPALMENTE, DOS GRANDES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO DO PAÍS. COMO O SENHOR VÊ ISSO?
Os ataques ao sistema de cotas da UNB surgiram desde que começamos a discutir o assunto. Eles se devem por termos sido a primeira universidade federal no Brasil a criar o sistema de ações afi rmativas. Hoje são mais de 17 federais e inúmeras em outras instâncias do estado brasileiro, por isso somos os principais alvos dos ataques pelos setores mais conservadores desta nação.

O SENHOR ESPERAVA ESSA REAÇÃO? QUEM SÃO ESSES SETORES?
Esperava uma ou outra reação, mas o que surpreendeu foi a violência dos ataques que partiram de setores acadêmicos e principalmente dos grandes jornais, de revistas e até da televisão, enfi m, setores da mídia brasileira.

O SENHOR FALA EM VIOLÊNCIA, COMO ASSIM?
Falo em violência porque uma coisa é você ser contra ou a favor do sistema de cotas deste ou daquele modo; você pode também ser contra qualquer tipo de ação afi rmativa por uma questão de princípio, mas a violência dos ataques mostra um sentimento de hostilidade a qualquer gesto que vise resolver o gravíssimo problema de exclusão dos negros no Brasil.

ESSA VIOLÊNCIA PODE SER INTERPRETADA COMO RACISMO DESSES SETORES?
Acho que essa interpretação tem que ser mais bem estudada e analisada por sociólogos e antropólogos que tentam compreender as origens do conservadorismo brasileiro, mas é interessante que não exista a mesma reação violenta com relação ao encaminhamento a programa de ações afi rmativas de outros grupos historicamente discriminados, como mulheres, índios, portadores de necessidades especiais e homossexuais. As questões desses grupos são vistas muitas vezes até com aplausos. Veja a parada gay em São Paulo, foi manchete em vários jornais do país como uma coisa positiva, o que é muito bom, mas quando falamos em abrir as portas de instituições e acesso aos bens públicos mais valiosos, como é o caso da educação para a população negra excluída, a reação é brutal, é violenta e isso precisa ser mais bem estudado e compreendido.

ESSES ATAQUES E ESSA VIOLÊNCIA NÃO ESFRIAM OS ÂNIMOS?
A imprensa certamente faz a cabeça das pessoas no Brasil. O poder da mídia é gigantesco, porém neste caso, apesar de simbolicamente a UNB ser a primeira peça do dominó por sua importância estratégica, só temos avançado, exemplo: um mês e pouco depois do último ataque que veio da revista Veja no caso dos gêmeos, mais quatro ou cinco universidades federais seguiram o caminho da UNB e adotaram ações afi rmativas, ou seja, o pensamento segue mesmo com toda a violência no sentido de nos humilhar como instituição e seus dirigentes. No meu caso, o lado que sentimos que absorveu mais essas críticas foi o Congresso Nacional: existem lá leis muito importantes para expansão das cotas, mas sentimos um certo recuo e um desânimo dos congressistas.

POR FALAR EM REVISTA VEJA, COMO FOI LIDAR COM AQUELA EXPLOSIVA MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA?
O ataque partiu inicialmente da família que pegou um resultado parcial, foi para a mídia e isso foi um grande alento para as forças conservadoras, mas o fato é que o processo ainda não havia sido concluído, tinha um recurso ainda sendo analisado. O sistema de cotas na UNB existe há três anos e até hoje somente com uma ação na justiça é que fomos parcialmente vencidos, mas que ainda está passiva de recurso. No caso dos gêmeos eles entraram nas cotas como uma aventura: um dizendo ser negro e outro branco. Isso é falsidade ideológica, passivos inclusive de serem processados. O sistema de cotas não é uma loteria; ele existe para dar as mesmas oportunidades para cidadãos que são discriminados pela cor de sua pele ou por origem ancestral escrava, e isso tem que ser levado a sério. A verdade é que nosso sistema de avaliação é muito bemfeito, o que acontece é que algumas pessoas se inscrevem no sistema de cotas por brincadeira e por isso eles ainda estavam sendo avaliados.

PARA ALGUNS INTELECTUAIS, INCLUSIVE NEGROS, A DENOMINAÇÃO "RAÇA" TAMBÉM É RACISTA E CONTRIBUI COM O SISTEMA RACISTA DE EXCLUSÃO. O QUE O SENHOR ACHA DISSO?
Isso é uma tentativa de mudar o eixo da discussão para o plano genético. É de uma desonestidade intelectual brutal, porém ela tem espaço nos campos acadêmicos e precisa ser esclarecida. Quando falamos raça negra no sentido sociológico, não tem nada a ver com a genética, e sim com pessoas sendo discriminadas na sociedade, é racismo! E isso não tem nada a ver com aquele racismo do Hitler que se propagava como uma supremacia de raça. Existe gente malintencionada que deseja confundir as coisas. Temos que esclarecer a sociedade para essas armadilhas.

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