No mundo de Casé, o passaporte de "simpatizante" não tem validade. À frente hoje de programas como Central da Periferia e Minha Periferia, a apresentadora, segundo afirma, vem trabalhando há anos para que possa haver de fato conhecimento e interesse mútuos entre o Brasil que come e o Brasil que tem fome. "Não quero mostrar a periferia só para quem é da periferia porque sou justamente contra o gueto. Eu quero abrir avenidas por dentro da periferia para que a periferia possa tomar conta da cidade e a cidade possa entrar na periferia", diz ela, ao comentar porque o conteúdo de Central é exibido não só mensalmente aos sábados à tarde na Globo (horário com maior audiência entre as camadas mais populares) mas também no quadro Minha Periferia do Fantástico (visto também pelas classes A e B). "É de uma estratégia para, mais uma vez, estabelecer a comunicação entre esses dois mundos", afirma a atriz, durante entrevista que concedeu à Raça enquanto trafegava a trabalho pelas estradas do Planato Central. "Ninguém imagina favela com casaco, não se tem muito essa imagem." Nessa e em outras estradas, o objetivo é que a realidade possa se mostrar com o mínimo de "filtros" possíveis.
RAÇA BRASIL - Ao longo desses 20 anos de visitas ao "Brasil profundo", que grandes descobertas - positivas e negativas - você destacaria sobre o país e os brasileiros?
REGINA CASÉ - Vou falar das positivas, porque em geral só se fala das negativas. Eu acho que, com as novas tecnologias e com o acesso a elas - em qualquer favela tem uma lan house, na borracharia, na farmácia -, as pessoas não têm mais um centro único. Qualquer talento da periferia era sempre uma arte que se manifestava de maneira mais "ingênua". Algo que alguém achava "bonitinho" e depois algum padrinho levava para outro lugar. Antigamente o sonho de qualquer mocinha era casar com o cara igual ao filho do patrão. E o de qualquer cara da favela era casar com a filha da madame. Hoje o padrão é diferente. Se você pegar uma garota da periferia, ela prefere mil vezes casar com um negão que seja pagodeiro ou MC, e que tenha valores estéticos e culturais mais parecidos com o dela. Essa é uma modificação grande e profunda. E que acho que enfraquece muito a dominação de outras classes sociais. É uma novidade boa.
"Socióloga da TV brasileira" é uma das descrições atribuídas a você. Como você se definiria hoje?
Não conseguiria viver no Rio e ignorar tudo o que está acontecendo ali, viver parcialmente. Isso seria no mínimo um problema oftalmológico (risos). E não é porque eu sou legal ou tenho vocação para socióloga ou política ou antropóloga. A gente faz as coisas primeiro pensando na nossa felicidade, e os grandes momentos de felicidade da minha vida foram proporcionados ou tiveram grande colaboração das pessoas que estão "à margem". Não vivo só no Rio, vivo no Brasil e viajo há 30 anos. Vou passando pelas pessoas, pelos assuntos. Gosto das pessoas e é impossível passar por isso tudo como se estivesse num túnel. Então tenho de tentar encontrar a melhor maneira de lidar com isso e fazer minha vida melhor e a vida das pessoas melhor ao mesmo tempo.
Apesar de estereotipicamente sermos o tal país da alegria, faltam visões positivas na vida real do brasileiro?
Com certeza. A gente vive em extremos, e isso não é saudável. Ou a gente acha que é o melhor do mundo, por causa do futebol, do Carnaval ou não sei o quê. Ou a gente está lá por baixo, só dizendo: "Ai, porque aqui no Brasil não isso, não aquilo". Vivemos nos extremos. Mas entre essas duas pontas existem milhões de coisas legais sendo feitas que somem, caem nesse abismo de ou a gente é o máximo ou é uma droga. Mais do que auto-estima, a gente precisa lidar melhor com a realidade, sem querer se colocar nem tão acima nem tão por baixo.
Sua trajetória é marcada pelo humor e pela irreverência. Fazer o brasileiro ligar a TV para ver a si mesmo seria uma irreverência, é o que lhe interessa hoje?
Claro, o instigante é o que ganha. Morro de saudade de ser atriz, essa é uma questão permanente. Mas, quando se entra num projeto como esse do Central e Minha Periferia, tão novo e tão envolvente para toda a equipe, acabo parando tudo e me envolvendo de corpo e alma.
É mais do que hábito ou opção. É ponto de partida: para Regina Casé só interessam as vias de mão dupla. Seja na Bahia - onde foi admitida no desfile do Ilê Aiyê por minutos que se converteram em "uma das maiores alegrias" de sua vida -, seja no Rio de Janeiro - quando foi apresentada à Mocidade Independente de Padre Miguel pelos parentes da empregada da família -, seja no asfalto paulistano, terra do hip hop "marrento" - que a atriz tem admiração
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