Quando Fatou Diome, 38 anos, deixou sua terra natal jamais imaginou que se transformaria numa grande escritora. Criada pela avó, peregrinava de vila em vila para estudar e, quando tinha tempo, escrevia pequenas histórias. Em 1994, casou com um francês e foi morar em Strasbourg, região leste da França. "Foi um erro de casting!", brinca. "Viemos morar na França mas a família dele não queria uma negra. Ele foi embora e eu fiquei por lá, batalhando." E foi dessa luta que nasceram os livros: La Préférence Nationale, Le Ventre de L'Atlantique e Kétala. Este mês, ela chega ao Brasil para o Festival França sem Fronteiras, promovido pela Aliança Francesa. Para falar sobre sua obra, suas crenças e seu estilo, com a palavra a escritora.
RAÇA BRASIL - Seus livros são ricos em detalhes e dão a impressão de que estamos vendo um filme. Você também é professora de cinema e comanda o programa Nuit Blanche, na televisão francesa 3. Há um intercâmbio entre as duas linguagens?
FATOU DIOME - Tento tornar a história o mais real possível. Acho que o romance permite mais fantasia na estrutura da narrativa, mais temas e mais pontos de vista. O fato de conhecer esses diferentes meios de expressão pode enriquecer o estilo. Sem imitar o cinema, podemos tomar emprestados dele a vivacidade e a força expressiva das suas imagens. As metáforas e a precisão de certas descrições favorecem o mergulho em um universo romanesco.
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"As mulheres ainda são minoria na literatura africana, mas estamos crescendo"
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Nas crônicas de La Préférence Nationale está presente uma garotinha que luta contra o racismo. E a mensagem é que ela sempre vence. Que impressão tem dos racistas e xenófobos?
Eu me baseei na minha experiência para escrever essa coletânea. Diante do racismo não ganhamos verdadeiramente pois nada pode nos impedir de sofrer por uma violência que atinge nossa dignidade. A heroína de La Préférence confronta uma forma de exclusão na África, ligada à sua própria condição, e em seguida o racismo na França. Ela tenta encontrar um refúgio e se mantém forte graças ao humor que lhe permite rejeitar essas adversidades. Tenho a impressão de que os racistas procuram sempre um bode expiatório e que o complexo de superioridade que eles têm é o testemunho de suas múltiplas fraquezas. Responder a esse ódio com mais ódio é fazer o jogo deles.
Como analisa o lugar das mulheres na literatura africana ?
Após 1975, quando as primeiras biografias de mulheres africanas foram publicadas, o caminho parece ter ampliado. As mulheres ainda são minoria na literatura africana, mas estão em constante crescimento. Além disso, depois de Une si longue lettre (Uma carta tão longa), de Mariama Ba, as obras delas ganharam mais visibilidade mundo afora. Penso que o aumento do número de meninas escolarizadas melhorará a representatividade das africanas, não só na literatura, mas também em outras disciplinas nas quais o atraso, comparando com os homens, continua enorme.
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